Posts recentes

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Com editorial 'Página virada' Folha quer fatiar e servir a História ao modo do chef Frias

Depois do recorte "ditabranda", quando tentou categorizar e catalogar ditaduras pela quantidade de sangue jorrado e mortes registradas, o jornal da família Frias quer dobrar bem dobradinho o lenço da ditadura, colocá-lo no bolso da calça Brasil e que sigamos caminhando, porque o passado é aquela roupa que não nos serve mais.

É o que declara cinicamente em seu editorial de hoje, 12 de dezembro de 2014, "Página Virada".

Pelo recorte do chef Frias, nas décadas de 60 e 70, "na América do Sul (e em outras partes do mundo) facções de direita e de esquerda recorreram à violência, levando ao colapso do regime democrático em vários países, entre eles o Brasil" .

Quer dizer que o golpe civil-militar foi consequência de um embate violento entre facções de direita e esquerda no Brasil, e, deduz-se, também no Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia...

Por força do acaso, evidentemente, todos os golpes foram de direita (e isso é de tal modo evidente que o editorial nem se dá o trabalho de citar o detalhe).

O chef Frias amacia a carne dos comensais, com um recorte crítico aos militares, "porque desencadearam uma repressão desproporcional e abusiva".

E eu que pensava que a primeira, a mãe de todas as violências tivesse sido o golpe, que derrubou um presidente democraticamente eleito e rasgou a Constituição...

Adiante, o editorial critica torturas e assassinatos ("abjetos"), mas, no contexto, essas mãos sujas de sangue eram apenas militares, e não, também, mãos de empresários nacionais e internacionais. Entre os quais deve-se destacar Frias pai, que contribuiu com dinheiro, carros das empresas e artigos elogiosos ao ditador de plantão, como este ao chefe do período mais sanguinário, Médici.

Sobre a Lei de Anistia, o editorial falsifica vergonhosamente a História e diz que foi uma concessão dos militares, quando na verdade foi fruto de uma rendição militar negociada, pois não contavam mais com apoio interno ou externo, o regime caía de podre, com fortes dissensões internas entre os que queriam devolver o poder aos civis e a linha dura.

A Lei de Anistia foi feita para evitar que os militares pagassem pelos crimes cometidos, pois os que os combateram foram presos, torturados, condenados - muitos à morte.

Ao final, o chef Frias defende a permanência da Lei de Anistia. Diz que o passado deve ser apenas "conhecido e debatido".

E, por que não julgado?

Porque aí, num julgamento justo, com acusações e defesas debatidas diante do país, o povo tomaria conhecimento dos que moviam nos bastidores as mãos armadas dos militares. Os que cresceram e enriqueceram às custas do golpe.

Por isso temem tanto o fim da Lei de Anistia.

A seguir, a íntegra do editorial.

....................

Página Virada

O relatório da Comissão Nacional da Verdade não traz novidade de monta em relação a um período já esmiuçado na história recente, o da ditadura militar (1964-1985).

Numa decisão controvertida, tomada logo após sua instalação pelo governo federal, em maio de 2012, a CNV excluiu do exame as violações de direitos humanos por motivação política que não tenham sido causadas pelo Estado. O relatório silencia, assim, sobre os crimes das organizações armadas que combateram para substituir a ditadura militar por outra, de cunho comunista.

Argumentou-se, com razão, que tais delitos já haviam sido punidos pelo próprio regime militar. Prevaleceu, entre os comissários, o entendimento de que o alcance da tarefa limitava-se a inventariar as denúncias de abusos cometidos pelas autoridades à época.

Após uma fase de letargia errática, a CNV conseguiu encaminhar seu trabalho nesses termos, sobretudo depois que o advogado Pedro Dallari passou a coordená-la.

Sabe-se que as décadas de 60 e 70 foram um tempo de extrema polarização na América do Sul (e em outras partes do mundo). Facções de direita e de esquerda recorreram à violência, levando ao colapso do regime democrático em vários países, entre eles o Brasil.

Maior porção de culpa cabe aos militares, seja porque desencadearam uma repressão desproporcional e abusiva, seja porque o ônus moral, nas sociedades modernas, recai sobre os vitoriosos. A prática rotineira da tortura e do assassinato configura mancha abjeta na história desses regimes.

A anistia irrestrita, concedida pela ditadura brasileira nos seus estertores, em 1979, foi o passo decisivo para a superação pacífica dessa crônica nefanda. Foi incorporada pela emenda constitucional que convocou, em 1985 –já após o restabelecimento democrático–, o Congresso constituinte que produziu a Carta em vigor desde 1988. E foi reiterada pelo Supremo Tribunal Federal em 2010.

Por mais que seus efeitos possam ser repugnantes do ângulo humanitário, sobretudo para os atingidos pela violência ditatorial, a anistia irrestrita é um dos pilares sobre os quais se apoia a democracia brasileira. Foi sua aceitação pelo conjunto das forças políticas que rompeu o ciclo de retaliações iniciado em 64.

Não é sensato nem desejável que compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, determinando que a tortura é crime imprescritível, possam sobrepor-se à soberania jurídica nacional quando se trata das próprias fundações do Estado de Direito entre nós.

A anistia deve ser preservada. O passado precisa ser conhecido e debatido. Para superá-lo de vez, falta às Forças Armadas divulgar os documentos retidos e reconhecer os abusos praticados.

Nas asas da Panair, Laura Capriglione faz bela matéria sobre os empresários da ditadura

O tema é amargo, espinhoso, macabro: os empresários que apoiaram solenemente ou a reservado contragosto a Ditadura civil-militar que violentou o Brasil de 1964 a 1985, longos 21 anos de prisões, torturas, exílio, desaparecimentos e mortes, que alguns desinformados comandados por canalhas querem trazer de volta.

Mas Laura Capriglione deu um show, iluminando a cena com a lembrança de Milton Nascimento, Elis Regina e dos empresários que disseram não à ditadura.

Laura conseguiu tornar leve, em alguns momentos até agradável, o horror daqueles tempos celebrado em palestras de Delfim Neto para os empresários aliados da ditadura, inclusive os de mídia, Mesquita, Frias e o que se deu melhor e mais se irmanou aos ditadores, Roberto Marinho.

Vou repetir a seguir trecho da matéria em que são citados alguns empresários que resistiram, para não ficar apenas nos colaboracionistas. Depois, o link para a matéria completa, que você não pode perder.

.....................
Anote os nomes de alguns homens que dignificam os homens justos:

José Mindlin (1914-2010), empresário, dono da Metal Leve, bibliófilo e escritor.
Antonio Ermírio de Moraes (1928-2014), empresário, dono do grupo Votorantim.
Fernando Gasparian (1930-2006), empresário, editor e político.
Mario Wallace Simonsen (1909-1965), empresário, foi um dos criadores da Panair do Brasil e da TV Excelsior.
Celso da Rocha Miranda (1917-1986), empresário, foi um dos criadores da Panair do Brasil e da TV Excelsior.

......................

Leia: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/laura-capriglione/saudades-dos-avioes-da-panair-os-empresarios-que-191005796.html

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Lançamento do meu romance 'Madame Flaubert' é nesta segunda, 15 de dezembro

Esta postagem é para lembrar ou informar que nesta próxima segunda, dia 15, no Bar Balcão, em São Paulo, vai acontecer o lançamento do meu livro Madame Flaubert.

O convite é especialmente dedicado aos leitores do Blog do Mello, que ano que vem completa 10 anos.

Além de nos encontrarmos e de curtir o livro,  que eu garanto que é muito bom (isso porque sou modesto...), pense que ele pode ser a solução para aquele presente de Natal que estava faltando.

Até lá.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Como querem dar o golpe, e para quem?

Como dar o golpe num governo recém eleito e vitorioso nos dois turnos?

Como dar o golpe, se a grande maioria da população, segundo o Datafolha, apóia o governo, a presidenta e acha que Dilma combate a corrupção?

Como dar o golpe num governo que tirou 40 milhões de brasileiros da miséria?

Como dar o golpe num governo que colocou o país com o menor índice de desemprego da História,  5%, enquanto há países na Europa com índices de mais de 25 - Espanha - e até 50 %  - Grécia?

Como dar o golpe numa presidenta que enfrentou todo o tipo de ataques e baixarias e uma campanha contra e sem tréguas da mídia corporativa em peso e mesmo assim venceu os dois turnos em 2010 e 2014?

Como dar o golpe num governo que levantou o país, que havia sido posto de joelhos pelo desastrado e impatriótico governo FHC, que vendeu nossas riquezas a preço de banana e quebrou o país três vezes?

Como dar o golpe, se temos hoje um dos líderes mais respeitados do planeta, "o Cara", nosso presidente Lula?

Como dar o golpe e achar que com as redes, novas tecnologias de informação e comunicação, e acesso das massas a elas, o povo assistirá bovinamente que se rasgue a Constituição e desrespeite sua vontade expressa há menos de 50 dias?

Como dar o golpe num país que é o B de BRICS, que engloba 42% da população, 26% do território e 20% do PIB mundial? BRICS que criou um Banco Mundial alternativo e põe em cheque o padrão dólar para as transações entre nações e ameaça a hegemonia dos EUA e o mundo unipolar?

Por último: Como dar o golpe "em nome do país" e conseguir esconder que o país, em nome de quem seria dado o golpe, não é o Brasil, mas os Estados Unidos da América?

sábado, 25 de outubro de 2014

Ao nomear Armínio Fraga seu futuro ministro da Fazenda, Aécio Neves abriu a caixa de Pandora que reduziu sua candidatura a pó


Armínio Fraga e George Soros


Quando Aécio lançou o nome de Armínio Fraga como seu boss na economia num futuro governo, cometeu o erro que, tudo indica, custou-lhe a eleição. Não que Aécio não tenha cometido outros erros. Ou mesmo, como para alguns (eu, inclusive), o grande erro tenha sido a própria candidatura de Aécio, que só existe no marketing, ainda assim debaixo da censura imposta em Minas a peso de ouro.

Armínio Fraga é, para dizer o mínimo, um nome polêmico. Ligado ao megaespeculador George Soros, Armínio é acusado de práticas que, se viessem ao conhecimento do grande público, provocariam comoção nacional. Homem de mercado, é frio o suficiente para tomar a medida que for necessária para aumentar o ganho de seus sócios ou empregadores.

O livro More Money Than God: Hedge Funds and the Making of a New Elite" (Bloomsbury) narra uma dessas:

Como gestor do Fundo Soros para mercados emergentes, Armínio teria obtido informações privilegiadas que o levaram a planejar e executar o ataque especulativo contra a Tailândia, que gerou lucros estimados hoje em R$ 2,5 bilhões de reais para George Soros e ele mesmo.

Ter "informações privilegiadas" já seria crime, uma jogada desleal no mundo dos negtócios. Mais grave ainda é como essas informações foram obtidas [destaque em negrito são meus]:

A informação privilegiada que induziu o ataque especulativo foi obtida, porém, em entrevista de Armínio e outros dois economistas do Fundo Soros com alta autoridade do Banco Central Tailandês, que foi questionado por Armínio sobre a prioridade a ser conferida pelo banco: elevar taxa de juros para defender a moeda de um ataque especulativo ou reduzi-la para evitar o agravamento da situação dos bancos? 

Segundo Mallaby (que entrevistou Armínio sobre a conversa), Armínio invocou sua própria experiência como diretor do Banco Central do Brasil (1991-1993) e pareceu, ao funcionário tailandês, “mais como um parceiro benigno de um mercado emergente do que como um ameaçador predador de Wall Street”

O funcionário ingênuo respondeu que a prioridade de defender a moeda tailandesa com a mais elevada taxa de juros que fosse necessária poderia estar mudando, em vista da taxa de juros mais baixa requerida em vista dos problemas crescentes dos bancos. Fraga e seus colegas teriam visualizado uma maleta cheia de dinheiro caso especulassem com a moeda tailandesa, mas fingido não notar para não alertar o funcionário do Banco Central da Tailândia a propósito de sua ingenuidade. Se notasse, ele poderia elevar a taxa de juros para encarecer a especulação cambial ou mesmo recorrer a bloqueios administrativos contra especuladores estrangeiros. 

Voltando a Nova Iorque, Armínio Fraga discutiu com o Fundo Soros sobre planejamento do ataque especulativo contra a moeda tailandesa. Um dos economistas que esteve na reunião com a autoridade inocente do Banco Central da Tailândia, Rodney Jones, questionou os outros dois sobre a moralidade de especular contra países em desenvolvimento: “se as moedas forem desvalorizadas sem controle, milhões de inocentes serão levados à pobreza desesperadora”

Mallaby parece sugerir que Armínio Fraga e os outros não consideraram o argumento suficiente para abortar o ataque especulativo que rendeu 750 milhões de dólares.[Fonte: Carta Maior]

Como entregar a economia de um país, que, apesar de todo o esforço bem sucedido realizado pelos governos Lula e Dilma, ainda é um dos mais desiguais do mundo, nas mãos de uma elite predatória há 500 anos; como entregar essa economia nas mãos de um homem de mercado, que pensa e visa a maximização de lucros, não importa o que aconteça nem a quem?

Fato é que, ao anunciar Armínio Fraga como seu futuro ministro da Fazenda, Aécio acenou para o mercado e a mídia, esquecendo-se de que o Brasil é muitíssimo maior que eles.

Mais: que o Brasil não se esqueceu do que Armínio e o governo tucano de FHC fizeram de mal ao país. E os que se esqueceram, não sabiam ou eram muito jovens na época foram lembrados ou informados por blogs e redes sociais.

O resto é história, que as urnas vão contar neste domingo.

OBS: Não dou links para a mídia corporativa porque eles também não nos linkam quando nos citam.

Madame Flaubert, de Antonio Mello

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Afinal, Aécio, via Armínio Fraga, vai privatizar BNDES, BB e Caixa? Pelas palavras de Fraga, sim

O áudio é de Armínio Fraga, sem cortes ou montagens. Armínio Fraga já foi escalado por Aécio Neves como seu ministro da Fazenda.

Coloquei nas legendas as vacilações de Fraga, porque achei que elas mostravam a preocupação dele em escolher as palavras. Porque sabe que esse é um assunto altamente explosivo, por envolver, nas palavras dele, "Três bancos públicos gigantes".

Mas, antes disso, ele alerta que vê esse assunto com uma "luz bem vermelha". Em seguida, após falar em BNDES, BB e Caixa, ele diz que ter três bancos públicos gigantes, não só na história do Brasil, mas na história mundial, que esse modelo "não é favorável ao crescimento e ao desenvolvimento".

Como ele diz que quer crescimento e desenvolvimento, vai mexer no modelo. São três. E gigantes. Logo, ele só pode a)eliminar os três; b) eliminar dois; c) eliminar um deles. Ou, tornar o gigante (pense que gigante é quem teve crescimento anormal), não-gigante, desidratando um deles, dois ou os três.

No entanto, é regra no capitalismo globalizado que, sem escala, nenhum banco sobrevive. Não à toa, Itaú e Bradesco, por exemplo, saíram às compras e engoliram inúmeros bancos.

Logo, seja qual for a solução a ser adotada por Armínio Fraga, ao final dela, um ou mais deles será privatizado. Ou serão bancos médios, facilmente comidos pelos gigantes privados. Portanto, privatizados.

Ele não usa a palavra, mas ao sentenciar que ao final, talvez eles não tenham assim tantas funções, e que "não sabe bem o que vai sobrar no final da linha, talvez não muito", a privatização fica nas entrelinhas, bem ali, entre os a, e, i, i, ff, que precedem algumas das palavras de Armínio Fraga.

Mais, a privatização é a única alternativa para ele.





OBS: Não dou links para a mídia corporativa porque eles também não nos linkam quando nos citam.

Madame Flaubert, de Antonio Mello

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Brasil não pode entrar nesse jogo em que Aécio Neves quer nos botar com Armínio Fraga




Antigamente, o empresário lucrava e reinvestia parte de (ou todo o) lucro em suas empresas. Hoje, graças ao agenciamento dos especuladores, empresários viram investidores, correm para o mercado em busca do "ganho fácil" do papel.

Grandes personagens deste fantástico mundo do faz de conta, que no entanto é bem real, faturam horrores com o dinheiro de quem produz, graças a aconselhamentos de gênios do mercado financeiro que lhes prestam consultoria.

Para dar nomes: no primeiro caso, o megaespeculador George Soros; no segundo, seu funcionário Armínio Fraga (que o candidato Aécio Neves já disse que será seu Ministro da Fazenda, caso se eleja).

Tudo isso é muito bonito pra eles, enquanto está em movimento, a ciranda roda... mas, numa hora, de alavancagem em alavancagem, eles passam a comprar o que não existe (pacotes que teoricamente valem uma fortuna, mas não estão lastreados em nada no mundo real), com um dinheiro que não têm (pagam com outros pacotes que também valem outra fortuna, e também sem lastro) e vendem a você, o da ponta, o único que chega com a bufunfa, o arame, o dinheiro real. Um você que pode ser um país, como aconteceu com a Islândia. E também pode ser o Brasil, se entrarmos na ciranda neolibelê de Armínio Fraga.

Quando a roda para de girar, eles simplesmente fazem como os mágicos, abrem seus lenços e não há nada lá dentro. Você fica sem seu dinheiro e o governo ainda tem que socorrê-los para não "quebrar o sistema" e, pior, para "manter o mesmo sistema". Isso se o governo não estiver pendurado na ponta podre do jogo, como grande parte da Europa, que cobra de seus cidadãos em desemprego, que chega a mais de 50%, entre os jovens, por exemplo na Grécia e na Espanha.

É isso o que está acontecendo ainda, mesmo após o colapso de 2007 ter mostrado ao mundo que por aí não havia saída. Se você não está informado sobre o que aconteceu, assista ao documentário Inside Job aqui mesmo no blog: http://blogdomello.blogspot.com.br/2011/07/inside-job-na-integra-e-com-legendas-em.html

Também há outra forma, mais sintética e extremamente bem humorada (e que parece absurda mas é bastante real, porque a realidade é que é absurda) de se inteirar daqueles acontecimentos, que é este vídeo, com o inigualável humor britânico.

Os dois atores zombam de muitas declarações dos “magos consultores”, os “gênios do mercado”, como esta, publicada na BBC em agosto de 2007, e citada no quadro:
"Market participants don't know whether to buy on the rumour and sell on the news, do the opposite, do both, or do nothing, depending on which way the wind is blowing," investment bank State Street Global Markets said.
Assista a Inside Job e ao vídeo a seguir e reflita se é isso o que você quer para o Brasil.



OBS: Não dou links para a mídia corporativa porque eles também não nos linkam quando nos citam.

Madame Flaubert, de Antonio Mello

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Quem tem receio dos debates, não sabe que chegou a hora da onça beber água e desconhece a sede da onça




Vejo algumas pessoas inseguras quanto à participação da presidenta nos debates contra Aécio.

Cheguei a receber manifesto para que ela se recusasse a comparecer aos que virão, a começar pelo de hoje na Band - aquela rede cujo presidente criminosamente ameaçou Haddad, impunemente.

Discordo, porque é incontrolável o ruído comunicacional que isso poderia gerar, já que temos toda a mídia corporativa contra o governo.

Mas discordo principalmente porque confio em Dilma. E não confio em Aécio.

Eu me lembrei de um caso, nos primórdios da retomada das maratonas, na década de 1970. Havia um estadunidense que ganhava várias delas. Acho que se chamava Bill Rogers - não tenho certeza, mas o nome não é importante para o que eu quero contar. Esse Bill (que seja Bill, pronto) ganhava muito, mas seu tempo sempre estava distante do recorde mundial.

Até que um jornalista perguntou ao recordista da época, um havaiano, se não me falha a memória (que vive falhando), por que ele achava que aquilo acontecia. 

Ele disse que Bill (cansei e fui ao google: o nome é Bill Rodgers) era um homem de classe média, e para bater o recorde mundial, correr abaixo de 2h20 (naquela época, hoje, mais dia menos dia, vão baixar de 2h), mas, dizia o recordista, que quem corria abaixo das 2h20 urinava sangue, sentia dores horríveis pelo corpo. E Rodgers, filho de classe média, não estava pronto para isso.

O mesmo penso do debate entre Dilma e Aécio. Ou melhor, dos debates. Aécio sempre foi um playboy, curtindo a juventude sem preocupações da zona sul do Rio, com um Bolsa Salário na Câmara dos 17 aos 21 para pegar surf e namorar. Depois um empreguinho de diretor da Caixa, sem nunca ter trabalhado num banco. Empreguinho garantido pelo primo e ministro da Fazenda na época, Francisco Dornelles, que havia sido indicado pelo avô de Aécio, Tancredo. Nepotismo puro.

Dilma, ao contrário, enquanto Aécio curtia a vida (veja bem, se não fosse pelo Bolsa Salário da Câmara, nada contra ele curtir a vida), pegou em armas contra a ditadura militar. E essa opção, na época, significava estar preparada para matar ou morrer.

Foi presa e barbaramente torturada por três anos, sem delatar seus companheiros. Essa mulher tem a lembrança da dor, do estoicismo necessário para suportar o que for para alcançar um objetivo.

Dilma sabe o que pode acontecer caso Aécio venha a se eleger. E ela sabe que cabe em boa parte a ela impedir que isso aconteça.

Ambos querem vencer, é óbvio. Mas a derrota para Aécio significará apenas voltar ao Senado (quer dizer, ao Leblon de onde ele senadeia).

Para Dilma, não. Porque essa luta não é de agora. Começou quando ela pegou em armas aos 17 anos. E, se não foram os milicos que a impediram de lutar, lutar, até chegar à Presidência da República para poder realizar os sonhos de toda uma geração, não vai ser quem sempre teve tudo de mão beijada, tutelado pela irmã, que irá dobrá-la.

Dilma é cintura dura. Não é simpática. Não tem o dom da oratória. Mas, na hora H, ela solta tudo o que na ditadura, na tortura, remoía dentro dela, e aí as palavras jorram.

Na hora da onça beber água, ela seca o rio, não é, senador Agripino?





OBS: Não dou links para a míHdia corporativa porque eles também não nos linkam quando nos citam.

Madame Flaubert, de Antonio Mello

'À Queima Roupa' é um documentário que não podemos deixar de ver. Pelo menos enquanto formos o que somos




Fui ontem à pré-estreia do documentário À Queima Roupa, dirigido por Theresa Jessouroun. O filme ganhou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Documentário no Festival de Cinema do Rio 2014. Após o filme houve debate com a diretora e mais Julita Lemgruber, Ignacio Cano, Marcelo Freixo, Luiz Eduardo Soares e, embora não estivesse na mesa, o coronel PM Brum.

O filme conta parte da história da violência no Estado do Rio nos últimos 20 anos. Com imagens reais da época e outras ficcionadas, À Queima Roupa nos faz reviver (ou viver, tomar conhecimento, para os jovens que não haviam nascido ou eram muito jovens na época da primeira chacina do filme, a de Vigário Geral, quando 21 pessoas foram fria e barbaramente assassinadas por PMs) a sequência de assassinatos, procurando entender como e por que aconteceram, e continuam a acontecer.

Felizmente, a diretora optou por dar voz a PMs e moradores dos locais onde aconteceram as chacinas. Há imagens da revolta que se seguia a cada uma delas. E também dos familiares que perderam irmãos, filhos, parentes. São depoimentos emocionantes de pessoas que até hoje reclamam uma presença do estado, para que sejam ao menos  indenizadas por aquilo que lhes foi tirado pela mão violenta desse mesmo estado.

No entanto, é possível sentir no filme a presença dos debatedores que estavam na pré-estreia, embora eles não apareçam. Quem conhece, ao menos de artigos em jornais, seu trabalho, sente que a levada do filme tem o olhar deles ao lado da diretora, que os usou como consultores.

Mas o grande personagem do filme é o X9 Ivan. Mérito da diretora, que se acercou dele e o colocou quase como narrador onisciente das chacinas e do que há por trás delas,

X9, para quem não sabe, é a gíria para o caguete, aquele sujeito que por dinheiro trabalha como dedo-duro para a polícia. E Ivan, confessadamente, participou de mais de 300 ações.

Curiosamente, o mesmo X9 acabou se voltando contra os PMs que lhe pagavam propina. Preso, resolveu contar tudo o que sabia, e seu depoimento foi fundamental para mostrar como, por que e quais foram os autores da chacina de Vigário Geral.

Ivan é um grande personagem, com seu cinismo forjado na vida real do Rio de Janeiro, dos arregos, dos acertos entre policiais e traficantes, do dinheiro, do tráfico de drogas e armas. O cinismo que é talvez a principal carcaterística de nossa sociedade, que se diz indignada com a violência, embora aplauda a polícia quando agride os "pivetes", os ladrões, os traficantes, desde que pretos e pobres. Alias, isso fica explícito no filme.

O filme tem todos os méritos, menos um. Direção, edição, trilha (de Tim Rescala), depoimentos e reconstituições dramatizadas são o mérito, que confirma o acerto da premiação do filme e da diretora.

Mas há uma falha, a meu ver indesculpável, e que talvez tenha passado batida pela montagem. Logo no início do filme, com imagens reais da chacina de Vigário Geral, há vários depoimentos de moradores, colhidos no chamado calor dos acontecimentos. E uma mulher culpa o governador Brizola por tudo aquilo. Que a moradora, desinformada e transtornada pelos acontecimentos dissesse aquilo é aceitável. Mas a cena ficar no filme 21 anos depois, não.

Brizola teve seus defeitos, mas foi em seu governo que a polícia perdeu a permissão do estado de entrar nas casas dos pobres sem mandado. Graças a isso, Brizola ganhou a fama de protetor de bandidos (quando ele protegia os pobres - o que faz parte do cinismo social que eu disse antes, "pobres e pretos são bandidos") e caiu em desgraça com a classe (Idade?) média, que o demonizou.

Também nos dois mandatos de Brizola, o comandante da Polícia Militar do Rio foi o coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, por muitos considerado o melhor oficial da PM de todos os tempos.

Por isso, ganharia o filme se a cena fosse cortada.

Mas À Queima Roupa é um filme que deve ser visto e debatido. Deve mesmo ser usado como ferramenta para amplas discussões, não apenas no Estado do Rio, já que o problema da violência policial é nacional, embora o Rio, segundo pesquisa, tenha conquistado o nada cobiçado troféu da Polícia Mais Corrupta do Brasil.

O filme estreia no Rio no dia 16 de outubro agora, quinta-feira.

NOTA: Como infelizmente é de se esperar de um filme com a qualidade e a temática de À Queima Roupa, ele precisa de apoio para uma distribuição como merece no Brasil. Confira como você pode colaborar aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UgbWBR0ffT8



OBS: Não dou links para a mídia corporativa porque eles também não nos linkam quando nos citam.

Madame Flaubert, de Antonio Mello