segunda-feira, 2 de junho de 2008

Repórteres de O Dia torturados: Liberdade de imprensa ou de empresa?


É a pergunta que me faço, quando ouço e leio que a cruel situação vivida por três repórteres do jornal carioca O Dia está sendo vendida como um atentado à liberdade de imprensa.

Essa é uma visão equivocada, que tira o foco da verdadeira questão: como uma empresa jornalística deixa três de seus funcionários arriscarem suas vidas para produzir uma reportagem que tinha tudo para dar errado, e deu?

Se já é difícil uma matéria dessas num morro dominado pelos traficantes, onde você pode (pelo menos em tese – eu disse “em tese”) contar com o socorro da polícia, é um risco enorme colocar três repórteres incógnitos numa favela comandada pelas milícias, onde os bandidos são policiais. Nessas horas, nem rezando para Julinho da Adelaide para chamar o ladrão.

Descobertos, os repórteres foram barbaramente torturados, por mais de sete horas, e só não morreram sei lá por quê. Ou sei: a certeza da impunidade, o que ficaria mais difícil, caso eles fossem mortos, pois isso aumentaria a mobilização da sociedade.

Sei é que isso está sendo bastante explorado pelo jornal, tanto em sua versão de papel, como na online.

Vale o risco? Vale arriscar a vida de três repórteres? Por pouco, o caso não explodia na mesma data da morte de outro jornalista investigativo, Tim Lopes. Até hoje, passados seis anos, uma história ainda não de todo contada.

O jornalista Mário Augusto Jakobskind escreveu um livro sobre o tema, e numa entrevista levantou aspectos pouco aprofundados na época, como qual teria sido a responsabilidade do jornalismo da Globo no caso. Afinal, Tim Lopes havia recebido o Prêmio Esso, ficara conhecido – o que deveria ser um impeditivo para quem quer fazer matérias investigativas, na condição de anônimo infiltrado.

Tim Lopes foi o primeiro ganhador deste prêmio na categoria de telejornalismo. Ao receber o prêmio, em dezembro de 2001, a emissora em que trabalhava o apresentou publicamente em todos os noticiários. Uma das condições para quem faz jornalismo investigativo é se manter no anonimato. Quando sua imagem foi conhecida, a condição de jornalista investigativo deveria ser deixada de lado. Mas ele continuou e foi escalado para ir à Vila Cruzeiro, supostamente para cobrir um baile funk, onde, segundo a Globo, se praticava sexo explícito. A Globo diz que Tim Lopes apresentou a pauta, enquanto a viúva Alessandra Wagner garante que os planos dele eram deixar de lado as reportagens arriscadas, como a que foi escalado para fazer. O livro mostra tudo isso e apresenta também algumas contradições nos depoimentos de diretores da Globo, que uma hora falavam uma coisa e depois, outra. Quem ler com atenção os depoimentos e entrevistas vai verificar facilmente que muita coisa que foi dita não resiste a uma mínima análise.

Na entrevista, Jakobskind denuncia até o comportamento do Sindicato dos Jornalistas:

O caso Tim Lopes é um exemplo concreto de como funciona o esquema do pensamento único. Ou seja, através de um fato você apresenta ao leitor ou telespectador a "única verdade", simplesmente ignorando outros eventuais questionamentos que colocam em dúvida a versão oficial. Tendo como carro-chefe a Rede Globo, a opinião pública só foi informada sobre o assassinato de Tim Lopes no que interessava à emissora. Diretores da "Vênus Platinada" saíram em campo de uma forma avassaladora, vendendo a "verdade". Até mesmo na área sindical dos jornalistas, esses mesmos diretores, que antes da tragédia nunca chegaram a passar por perto da sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, que dirá entrar, participavam ativamente das mobilizações relativas ao episódio e de assembléias. A direção sindical, ao invés de se posicionar de forma isenta, aceitando pelo menos examinar as colocações que questionavam o procedimento da TV Globo, simplesmente fechou questão em torno da versão da emissora. Ficou parecendo que houve uma espécie de permuta, ou seja, transmitir a verdade da Globo em troca de cinco minutos de fama... Nunca o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro apareceu tanto na tela da Globo como a partir daquele episódio. [leia entrevista completa aqui]

E você, o que acha? Liberdade de imprensa ou liberdade das empresas jornalísticas, que se aproveitam do período difícil que atravessa o mercado de trabalho dos jornalistas (quando muitos são obrigados a engolir não apenas sapos mas até camelo...), para explorar ao máximo o trabalho de seus contratados?

Leia também:

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11 comentários:

  1. ATENÇÃO, COMENTARISTA:

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    Antônio Mello

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  2. Flavio Médici2.6.08

    fico impressionado com a capacidade das pessoas discutirem o periférico em detrimento do principal.
    Neste caso, não está em jogo a liberdade de imprensa ou qualquer coisa parecida. O que aconteceu aos jornalista acontece todos os dias com os moradores, logo o que interessa é a liberdade da população que residem nesses bairros, reféns da bandidagem, tanto fardada quanto descamisada.

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  3. Caro Mello;
    Está na cara que a mídia está dando uma de vítima para rebater às críticas e à oposição cada vez mais crescente ao jornalismo marrom.

    Você tem razão quando fala da irresponsabilidade dos patrões, que arriscam a vida de seus profissionais em busca dos furos de reportagens.

    Chegou a hora de debatermos essa situação. Muitas vezes fazemos aquilo que não queremos, por força do capital.

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  4. romério rômulo3.6.08

    mello:
    eu vivo encrencado com a tal liberdade de imprensa.as empresas da área querem é liberdade pra dizer aquilo que elas querem,em função de seus interesses.você manda jornalistas pra guerra,eles
    morrem,e você grita pela liberdade
    de imprensa?é muita enganação!
    romério

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  5. Jairo Fernando3.6.08

    Inacreditável que a empresa não meça os riscos! Uma favela dominada por milícias e os repórteres vão incógnitos? Não há atentado à liberdade de imprensa porque qualquer jornal, revista ou blog pode fazer uma reportagem sobre as milícias do RJ, como muitos já fizeram (só para citar, a revista Época 448, de jan/07).

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  6. Finalmente, os sindicatos e associações de jornalistas estão agora dando o foco correto à questão.

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  7. Mello, dá uma olhada no Blog do Marona. Ele falou com o Tim dias antes do assassinato, que se queixava de fazer esse tipo de reportagem.

    Abraço.

    http://blogdomarona.blogspot.com/2008/06/mriam-defende-o-dia.html

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  8. Altemar Vasconcellos3.6.08

    Estou assistindo a TVBrasil e o assunto tá rolando, sob o "comando" do velhinho. A abertura do tema foi um discurso do Aly Kamel, sei não... Esses caras observam o quê? e de onde? como? e com quem? deem uma olhada.

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  9. nsdelgado4.6.08

    Três jornalistas? Me parece que um era motorista, outro fotógrafo e o terceiro jornalista. Os três estavam fazendo um trabalho muito perigoso para o faturamento do DIA. Queria saber então se os três receberam treinamento suficiente para esse trabalho. Treinamento do tipo que recebem os agentes do FBI, CIA, INTERPOL, PF, ABIN, para esses mesmos casos. Falar que o que aconteceu é um caso de cerceamento do trabalho da imprensa é ridículo. O culpado disso tudo é o DIA.

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  10. Você tem razão, em parte, Delgado: uma das pessoas da equipe era motorista. Mas os outros dois eram repórteres, sendo que um, repórter fotográfico.
    Sobre O Dia, temos a mesma avaliação.

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  11. Pedro JFilho4.6.08

    SRs. JORNALISTAS, LUTEM PELA HONRA DOS SEUS COLEGAS

    Vejam que nas pags. 12, 13 e 14 da edição de hoje (04/06/08) do Jornal O Globo, tem 3 matérias que se completam.
    Na pagina 12: A deputada Marina Maggessi aparece como uma das responsáveis pelo combate as milícias.
    Na pagina 13: Denuncia-se a relação do Álvaro Lins com as milícias.
    E para fechar, na pagina 14, a deputada Marina Maggessi é acusada de fazer parte do bando do Álvaro Lins.

    "SERIA A RAPOSA TOMANDO CONTA DO GALINHEIRO"?

    Amigos:
    O Sr. Beltrame esta debochando de vocês.
    Que força "DIABÓLICA" tem este senhor? Que mesmo sem fazer nada de efetivo em seu cargo mantem-se como um intocável.

    Cade a força da categoria?

    Vocês estão parecendo "elefantes" são capazes até de derrubar um presidente e estão se acovardando perante um "rato".

    Torço para que amanha "O DIA" seja melhor, em um "GLOBO" mais justo e ético, e que todos dediquem pelo menos "MEIA HORA" " EXTRA" do seu seu tempo para exercitar a cidadania.

    Pedro JFilho

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