segunda-feira, 30 de março de 2009

Diploma de jornalista não é garantia de Jornalismo


Não vou entrar aqui no mérito da exigência ou não de diploma de curso superior em Jornalismo para exercer a profissão de jornalista. Se for entrar nessa questão vou me desviar do assunto desta postagem, que é criticar a defesa que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) faz da tal exigência.

Que eles defendam o diploma e o nicho de mercado para a profissão (e também para as faculdades catadoras de dinheiro espalhadas pelo país) é problema deles. Minha crítica é quanto ao contexto e aos argumentos utilizados.

Como a votação pelo STF se dará no dia 1° de abril, eles estão comparando o fim da exigência do diploma à implantação de uma ditadura no Brasil, semelhante ao golpe de 1964. Está no texto do folder [o destaque é da Fenaj]:

Em 1964, há 45 anos, na madrugada de 1° de abril, um golpe militar depôs o presidente João Goulart e instaurou a ditadura que castigou o Brasil durante 21 anos. A sociedade brasileira pode estar diante de um novo golpe.

Peralá. Quer dizer que se o STF disser que não é necessário diploma para exercer o jornalismo no Brasil (não vou nem citar aqui os países em que essa exigência não existe) vamos voltar ao período das trevas, da censura, do arbítrio, da violência, da tortura, do assassinato, da cassação de políticos, da falta de liberdade de expressão etc?... Não é forçar demais a barra?

Mas, prossegue o folder [o grifo agora é meu]:

Desta vez, direcionado contra o seu direito de receber informação qualificada, apurada por profissionais capacitados para exercer o Jornalismo, com formação teórica, técnica e ética.

Onde é que nós estamos (ou a Fenaj afirma que estamos) recebendo “informação qualificada, apurada por profissionais capacitados para exercer o Jornalismo, com formação teórica, técnica e ética”? Qual é o veículo em que isso está acontecendo?

Porque as grandes redes de TV, jornal, as revistas, a tal mídia corporativa, enfim, há muito que não produz (ou produz muito pouco) algo que se possa chamar de Jornalismo, com jota maiúsculo.

Não tenho nada contra a exigência ou não de diploma (embora a exigência me pareça apenas uma questão corporativista somada aos interesses dos donos de faculdades de Jornalismo), mas não é o diploma de jornalismo que faz um jornalista. Nem é a defesa desse diploma que qualifica uma associação de classe.

Onde estão os jornalistas quando os repórteres são obrigados a mentir, falsificar, manipular? Onde estão os jornalistas de uma Veja (provavelmente todos com diploma), por exemplo, que permitem que nossa maior revista semanal tenha se transformado no lixo informativo que é hoje?

Onde eles estão quando permitem que esta mesma Veja tenha em seus quadros um jornalista de esgoto, especialista em ofender colegas de profissão, sem que nada seja feito?

Ao sair da Rede Globo o jornalista Rodrigo Vianna (atualmente na Record) afirmou que entrevistas e reportagens em que estivesse envolvido o governador José Serra tinham que passar pelo crivo de Ali Kamel, o diretor-executivo de jornalismo da RGTV, gerando omissões, falsificações, manipulações. Numa hora dessas, de que serve o diploma, se os diplomados entubam e se calam, se os sindicatos sabem do problema e se omitem?

A Fenaj (imagino que os sindicatos do Brasil inteiro também estejam engajados nesta batalha pelo diploma) está perdendo uma grande oportunidade, ao atrelar a qualidade do jornalismo apenas à exigência do diploma. A internet, as rádios comunitárias, a mídia livre, já atropelou esse “jornalismo chapa sindical” há muito tempo.

Mas, eu pelo menos, esperava uma ampliação de horizontes, que essa exigência do diploma viesse acompanhada de um código de ética da profissão, que não permitiria aos alikamels da vez detonarem com o jornalismo plural e informativo – este sim, o verdadeiro jornalismo. Será pedir demais? Ou o negó$$io é só o diproma, e vice-versa?

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12 comentários:

  1. graciliano30.3.09

    Um absurdo a colocação da Fenaj sobre o golpe militar comparado à possível extinção da exigência do diploma. Este pessoal está há tanto tempo empenhado no lobby das nossas excelentes faculdades que descolou-se da realidade.
    E tem razão o Mello ao cobrar das entidades de classe uma ação fiscalizadora sobre os abusos de jornalistas e órgãos convertidos em panfletos de campanha política. O jornalismo praticado no Brasil é péssimo, técnica e éticamente, e a Fenaj finge nada ter a ver com isso.

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  2. Sérgio Luiz30.3.09

    Falando em jornalismo sério, acabo de ver na globonews um apresentador criticando o governo por ter reduzido o IPI dos chuveiros elétricos e dos canos d'agua, pois o chuveiro elétrico gastaria energia, sendo assim o governo deveria incentivar o uso de aquecedores solares; também não seria correto diminuir impostos sobre os canos de tubulações, pois assim a população abusará do consumo de água. Só não falaram nada da diminuição do IPI do cimento por que não conseguiram outro malabarismo retórico, mas defenderam arduamente os fumantes, que vão amargar com o aumento do cigarro. Essa imprensa brasileira em... ainda bem que desisti do jornalismo e fui fazer História.

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  3. Assunto interessante esse chamado jornalismo.
    O olhar para a realidade, com certeza, permite a possibilidade de um ocelo. São muitas faces, muitas visões. Também não defendo nem um pouco aquilo que costumo chamar de "bodega". Antigamente, se dizia: pagou, passou. Eram as "bodegas". O tempo passou e a coisa piorou nesse campo. É a educação, a saúde, tudo virou meio de vida, máquina de fazer dinheiro. Tudo mercadoria. Excluindo esse aspecto, também defendo a exigência do diploma para exercer a profissão, independente da defesa da Fenaj. Imagino que no restante do Brasil é como aqui, no Ceará. Tem as bodegas, sim. Mas, o mercado de trabalho do jornalista está aviltado há décadas. E os patrões fecham-se cada vez mais em admitir profissionais formados na academia, resultando daí uma comunicação de péssima qualidade, feita por indivíduos sem formação qualificada, sem compromisso com a sociedade - nem com a verdade, nem com a justiça, com nada que represente o respeito à informação pública. O compromisso dos ditos profissionais, em sua maioria, é apenas com os "interesses" patronais, representando, via de regra, os antagonismos sociais. Isso ocorre principalmente nos meios eletrônicos - rádio e TV. Mas também já se dissemina no meio impresso, o que é pior. A discussão é ampla.

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  4. Andrea Marques, Rio de Janeiro31.3.09

    Quando você fala de um código de ética se esquece de que foram os empresários que podaram, com apoio de vários parlamentares do DEM e do PSDB a possibilidade de se ter um Conselho Federal de Jornalistas, esse sim com um código de ética que pudesse ser respeitado. Você faz coro com a Folha de S.Paulo e todos os poderosos donos da mídia que massacram os jornalistas nas redações. Jornalistas que não tem um código de ética que os proteja da ofensiva dos interesses patronais. Por incrível que pareça, com o diploma, se democratizou o acesso à redação, como bem dizia Barbosa Lima Sobrinho que sempre apoiou a FENAJ nessa luta. Porque até então eram os empresários, que, ao contratar os seus preferidos e indicados, fazia a categoria: ou seja, o empresariado definia quem seria jornalista ou não. A luta pela democratização da comunicação tem na FENAJ um dos seus pilares. Foi a FENAJ que sempre defendeu as rádios comunitárias dos ataques da Polícia Federal e estimulou a criação de várias delas - está certo que hoje a maioria está na mão de parlamentares de direita e da igreja evangélis, mas tudo bem, vale o princípio de uma comunicação popular. Enfim, acho que você deveria dirigir a sua metralhadora contra os poderosos donos das empresas e seus jornalistas prepostos. Nunca contra uma entidade que luta, há muito, não só pela democratização da comunicação, como também por um código de ética que seja respeitado e a liberdade de organização dos jornalistas, para que eles não tenham que se submeter aos Gilmar Mendes da vida. Imagine! Ele é o relator da matéria. Além disso, a FENAJ também está numa comissão dentro do MEC para tentar mudanças nos currículos das universidades. Você quer mais o que? Eu sou jornalista, me formei muitos anos depois de já ter o registro e de estar na profissão, defendo a ação da FENAJ contra a desregulamentação profisisonal e não me arrependo!! Pra frente FENAJ, vamos lutar pela exigência do diploma!!!!

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  5. Andrea,
    também tenho outras coisas em comum com os donos da mídia. Por exemplo, dormir, prefiro fazer na posição deitado. Andar, de pé - embora vários deles prefiram andar de quatro ou até rastejando. Mas para pensar uso a minha cabeça. É o que está escrito na postagem.
    Minha crítica é quanto à divulgação da campanha pela Fenaj e contra a defesa de que o diploma é garantia de bom jornalismo. Veja, O Globo, Estadão, Folha só têm em suas redações jornalistas diplomados. Isso prova que diploma de jornalista não é garantia de bom jornalismo.

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  6. Anônimo31.3.09

    Fazer comparacões com os paises desenvolvidos é desconhecer a realidade brasileira, as deficiências e a falta de acesso dos brasileiros a educacão e a cultura. Mas também seria interessante recuperar sobre o que esta acontecendo na europa, onde cresce o número de cursos de jornalismo.Ainda, na maioria dos paises desenvolvidos existem periodicamente os draconianos exames de ordem para o exercicio da profissão.

    Estamos há 7 anos com a validade da liminar que não exige o curso de jornalismo para o exercicio da profissao e nada mudou nesse país em relacão à liberdade de expressão. Esse direito esta privatizado, decidido pelos empresários. A não exigência do diploma irá precarizar ainda mais o exercicio da profissao. Quando se fala de empresas que não cumprem essas regras, equivocadamente se culpa os jornalistas e o empresariado do setor nem sequer é lembrado. Isso tudo é fruto da ausência de um marco regulatório no setor de comunicacao.

    A internet, a midia livre e as rádios comunitarias podem livremente se expressar e se comunicar mas não podemos confundir isso com jornalismo, quem confunde é por desconhecimento do que é jornalismo.

    Não é verdade que a FENAJ não se preocupa com a qualidade do ensino. Se se desconhece as ações da entidade então vai lá: existe a catedra Fenaj em defesa da qualidade dos cursos de jornalismo; a Fenaj e o Ministério da Educacao atuam juntos na elaboração das novas diretrizes para os curriculos de jornalismo. A Fenaj e o forum Nacional dos Professores de Jornalismo vem apresentando propostas de melhoria na qualidade do ensino. Achar que o curso de jornalismo não ensina nada e apostar nos cursinhos que alguns veiculos fazem de três meses para adestrar "jornalistas" e apostar na falta de uma regulamentacão para a profissão e transferir totalmente para os empresários a decisao de quem será o futuro "jornalista".

    É óbvio que no jornalismo, como em qualquer outra profissão existe o bom e o mau profissional e muitos destes estão a serviço das grandes empresas de comunicação. Se eles foram "cooptados" pelo sistema não cabe a nenhuma instituição obrigá-los a exerce a profissão com isenção, responsabilidade e ética. Mas, em regra, essa seria a forma correta de atuação independentemente de ideologia. No entanto, mesmo se houvesse e há o código de ética para o profissional do jornalismo, não garante excelência no serviço prestado.

    O texto do Melo diz Inicialmente que a Fenaj defende as faculdades catadoras de dinheiro e eu digo que na contra-mão e acredito, mesmo sem querer o blog acaba defendendo os grandes grupos de comunicacao do pais.
    A comparacao da ditadura é porque, especialmente para os desavisados, o jornalismo é um dos pilares da democracia e desqualificando a profissao a sociedade esta sendo golpeada.

    Sou Geógrafa e Jornalista, ambos por formação.

    Benildes Rodrigues

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  7. Benildes,
    acho que você escrevia seu comentário enquanto eu publicava o meu anterior. É isso mesmo?

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  8. Anônimo31.3.09

    Mello, fico observando o "nível" dos novos jornalistas em entrevistas, nos noticiarios da TV ou matérias escritas (com gravíssimos erros de português e concordância) e fico pensando... e querem exigir diploma pra que? Para termos uma bando de "formatadinhos" saidos das universidades, chegados ao pensamento único, motivados por fofocas, que não raciocinam? E o que fazer com jornalistas da envergadura de um Mauro Santayana e Alberto Dines, ou até mesmo do Sílvio Santos (empresário e comunicador)? Um dos queridinhos da mídea, o Gabeira, não tem formação universitária e se diz jornalista... e aí?
    Essa mentalidade de que “diploma” garante qualidade profissional é uma grande bobagem... pessoalmente, não tenho formação acadêmica e sem falsa modéstia, garanto que sou mais competente que muitos formados e “especialistas” que existem por aí rsss

    Abraços,

    Red Pepper

    JS - RJ

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  9. Anônimo1.4.09

    Mello
    Qual anterior? É uma réplica ao que você escreveu. Tomei conhecimento por meio do Beatrice e respondi.
    Benildes

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  10. Anônimo1.4.09

    Bom dia.

    Gostaria de dizer que faço um curso de pós-graduação com foco em relações públicas mas que está lotado de jornalistas.
    Não vejo nenhum deles falar a respeito da falta de profissionalismo na invasão que os jornalistas promoveram no meio de RP, "marginalizando" os próprio relações públicas de formação que hoje não gozam de qualquer prerrogativa que lhes garanta um espaço que, pelos argumentos que defendem a exigência do diploma de jornalismo, deveria ser prioritariamente deles, RPs.
    Se você somar isso à subserviência a que os jornalistas têm tido em relação aos seus empregadores, entregando a eles sua independência que garantiria um jornalismo informativo e investigativo, permitindo-se fazer jornalismo editorializado e especulativo, devemos apoiar a supressão do diploma no exercíco da profissão.
    Prcisamos de jornalistas, diplomados ou não em jornalismo, capazes de contrapor o atual sistema operante na indústria da informação para que o público volte a confiar nos meios tradicionais.

    comunicador

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  11. Anônimo1.8.10

    Os jornalistas não estão preparados para falar sobre qualquer assunto. A faculdade de jornalismo os prepara apenas para alguns trabalhos, que também são orientados por cursos técnicos. Para escrever bem é preciso muito mais do que essa orientação. É preciso saber. Conhecer. É por isso que estão sendo desbancados pelos profissionais das outras áreas. É um absurdo quererem limitar um direito de todos, o de dizer, apenas para defenderem o interesse deles, de se livrar da forte concorrência .

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