terça-feira, 28 de abril de 2009

Reporcagem da Folha sobre Dilma ‘não foi erro, foi fraude’



O inferno da Folha continua...

Quando publicou a reporcagem sobre o tal sequestro de Delfim Netto (que nunca houve), a Folha queria atingir dois objetivos: mostrar que Dilma era uma “terrorista” (você entregaria o governo na mão de uma?) e fustigar os que combateram a ditadura, que para a Folha e Pinochet (veja vídeo acima) foi ditabranda.

A jornalista Sylvia Moretzsohn, que também é professora da Universidade Federal Fluminense e autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007), escreveu o seguinte artigo, publicado no Observatório da Imprensa, onde mostra que o erramos da Folha significa fraudamos:

Quando o "erramos" pretende encobrir a fraude
Por Sylvia Moretzsohn em 28/4/2009

A controvérsia iniciada pela Folha de S.Paulo em 5 de abril, com a extensa matéria que vinculava a atual ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao planejamento do sequestro do então ministro Delfim Netto, em 1969, atingiu um novo patamar com o texto publicado sábado (25/4). O título, oblíquo, dissimula: "Autenticidade de ficha de Dilma não é provada". Ali o jornal – em matéria enviada pela sucursal do Rio, e não produzida na sede – reconhece dois "erros": o crédito, como "Arquivo [do] Dops", dado à reprodução de um documento que, na verdade, fora enviado por e-mail à repórter, e o fato de haver tratado como autêntica uma ficha cuja origem não podia comprovar.

Este Observatório reagiu com agilidade à matéria, acusando no dia seguinte o "erramos envergonhado" e afirmando: "Folha publicou ficha falsa de Dilma". No entanto, errou, também, duplamente: primeiro, ao dizer que o jornal havia reconhecido ser "falsa" a tal ficha; segundo, e mais importante, ao tratar como "erro" algo que é evidentemente uma fraude. Delimitar com clareza a distinção entre uma coisa e outra é fundamental para uma crítica justa, dadas as implicações – jurídicas, inclusive – que cada uma dessas práticas importa.

As diferenças entre erro e fraude

Erro, como se sabe, é algo casual, involuntário, que "acontece". Pode ser banal e irrelevante, pode ser grave, gravíssimo e produzir consequências catastróficas, pode resultar de incompetência ou de informações insuficientes, mas será sempre um acidente. É, como se costuma dizer, uma característica da espécie humana. No caso do jornalismo, o ritmo sempre acelerado de produção, aliado ao irracionalismo que domina a competitividade na era do "tempo real", costumam ser a principal justificativa – quando não a desculpa – para os erros que se multiplicam no noticiário cotidiano. Foi um erro, por exemplo, o anúncio da queda do avião da Pantanal em São Paulo, em maio do ano passado; foi um erro assumir como verdadeira a denúncia da brasileira que teria sido torturada por skinheads na Suíça.

Não é o caso dessa história sobre a ficha da ministra: desde sempre, a Folha sabia da origem do documento e também sabia que não havia confirmado sua autenticidade. No entanto, vendeu-o como fidedigno e falseou a fonte. Não apenas no minúsculo "Arquivo Dops" que aparece como crédito, mas no escancarado FICHA DE DILMA ROUSSEFF NO DOPS, menor apenas que o título da chamada de capa da edição de 5 de abril.

Obrigada a recuar, diante das investigações realizadas por iniciativa da própria Casa Civil, que demonstraram a inexistência daquele modelo de ficha no Arquivo Público de São Paulo, e da carta que a ministra escreveu ao ombudsman, a Folha optou pelo contorcionismo verbal – para não dizer ético – e acusou um singelo "erro técnico" na classificação dos documentos utilizados para a reportagem, que teria originado a identificação equivocada da fonte.

É verossímil que uma reportagem que custou quatro meses de pesquisa – segundo artigo neste mesmo Observatório ["Uma releitura da Folha e da fonte", em 8/4] – possa descurar de algo tão elementar como a catalogação correta daquela ficha?

Pérola de cinismo

Já muito se especulou sobre as intenções dessa reportagem. É muito óbvio que, se o jornal estivesse comprometido com o nobre propósito de zelar pela "memória da ditadura", não teria qualquer motivo para explorar a figura da ministra: afinal, todas as informações sobre o planejamento do sequestro-que-não-houve foram dadas por Antonio Espinosa, o comandante militar da organização guerrilheira. Como argumentou o ombudsman em sua primeira crítica sobre a matéria, o correto seria utilizar como ilustração a ficha de Espinosa.

Mas quem conhece Espinosa?

Por outro lado, quem desconhece Dilma?

Então é muito óbvio: a título de "memória da ditadura", o jornal alardeia, jogando com o tamanho das letras: "Grupo de DILMA planejou sequestro de DELFIM NETTO". E "ilustra" a chamada com a reprodução da tal ficha policial.

É óbvio demais: a publicação de fotos ou cópias de documentos só se justifica como comprovação de fatos. Por isso, precisam ser fidedignos. Porém a Folha decidiu publicar um documento cuja origem desconhece e que "está circulando há mais de um ano pela internet". Entretanto, só nos diz isso agora, desculpando-se pelo "erro", que nem foi tão grave assim: afinal, a autenticidade "não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada".

Esta pérola de cinismo – esse cinismo que campeia nas redações e que exige de todos os que vivem ou passaram por essa experiência um estômago de avestruz para discutir a sério tais argumentos –, esta pérola de cinismo tem, no entanto, efeito oposto ao pretendido: só ajuda a escancarar a fraude, que induz o público a erro e o leva a duvidar do jornal que lê.

Testando hipóteses

Todo mundo sabe que o principal capital de um jornal é a sua credibilidade. Todo mundo sabe que vender gato por lebre é fraude. Nem se fale do ponto de vista ético, mas dos interesses mais comezinhos de sobrevivência, que orientam qualquer comerciante em seus cálculos. Por isso, o espanto: sabendo que seria inevitável a descoberta da fraude, como foi possível tamanha irresponsabilidade?

Talvez a resposta esteja na já famosa teoria do teste de hipóteses, como observaram aqui mesmo, em comentário, o professor Samuel Lima e, em seu blog, o jornalista Luiz Carlos Azenha: a Folha estaria apenas testando a hipótese da autenticidade do documento – bem de acordo, aliás, com outra hipótese, tão cara ao "jornalismo colaborativo", de publicar primeiro e confirmar depois. De minha parte, sugiro outras duas. A primeira (da matéria original): a principal fonte implicada, uma ministra de Estado, não iria correr atrás da informação; a segunda (do atual "erramos"): o público é idiota.

Tão idiota que nem deve ter notado a ausência de um mísero registro desse "erramos" na capa, como seria compatível com um mínimo critério de proporcionalidade. Tão idiota que pode, por isso mesmo, ser convencido de que a autorregulação é mesmo o melhor caminho para a garantia de uma imprensa livre, democrática e responsável. Tão idiota que não deve achar necessário o esclarecimento cabal desse escândalo.

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4 comentários:

  1. Anônimo28.4.09

    BOCA LIVRE AÉREA PARA A IMPRENSA.
    CORTESIA DO SENADOR HERÁCLITO

    28/04/2009 - 12:58 - Blog Nassif

    Por Paulo Henrique
    caro jornalista,

    Eu sou piauiense e uma das minhas grandes revoltas e que, a midia local, a exemplo da nacional, costuma blindar alguns politicos canalhas. Um exemplo disso é esse senador Heraclito Fortes. Todos os anos ela faz uma “confraternização com a imprensa” e sorteia entre os “JORNALISTAS”, vários brindes. Até aí tudo bem, o problema e que ele sorteia PASSAGENS AÉREAS, inclusive para a EUROPA.

    Quando começou a pipocar esse escandalo das passagens aéreas, eu fiquei feliz. Pensei, agora vão pegar esse salafra. Na própria revista(lixo) Veja aparece uma charge dele e a frase: “se forem atrás das passagens, nem JORNALISTA escapa”. Eu pensei que fosse uma confissão, mas pelo visto foi uma ameaça. Simplesmente não vi uma linha sobre a distribuição de passagens aereas que o nobre senador faz todo ano.

    Mas que um desabafo, caro jornalista, estou escrevendo na esperança que você possa aprofunda mais esse tema, pois é mais uma mostra da relação promiscua entre a “midia” e “políticos”. Para o senhor verificar como essa pratica é antiga, basta ir no GOOGLE e usar as palavras sorteio, café da manhã, confraternização e senador heraclito fortes. Vários colunistas locais são agraciados com os brindes e até o jornalista Paulo Markun (em 2005) citou essa farra.

    Para finalizar, gostaria de agradecer por me brindar com temas relevantes sobre mídia e economia, seu sitio e espaço acessado várias vezes por dia e sempre acompanho suas materias. Obrigado por tudo

    Do Terra
    Obelix do Piauí e sua escada magirus
    Sexta, 30 de dezembro de 2005, 15h27

    Paulo Markun - Colunista do Jornal do Terra

    Pois nesta sexta-feira, Heráclito Fortes reuniu a imprensa de Teresina para um encontro de fim de ano. Os jornalistas que compareceram ganharam do senador uma agenda eletrônica. No final, ainda foram sorteados brindes como uma passagem para Lisboa, Portugal, ganha pelo cinegrafista Mardone Valcacer. Na festinha, o senador apresentou sua nova conquista, a escada magirus para Teresina.

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  2. De quem apoiou, em todos os sentidos, uma ditadura, não se pode esperar nada diferente. A Folha não cometeu uma fraude, é uma fraude!

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  3. Alírio28.4.09

    Por falar em fraude, veja essa nova e cabeluda descoberta do Cloaca:
    http://cloacanews.blogspot.com/2009/04/globo-omite-ficha-de-vigarista-em.html

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  4. Anônimo29.4.09

    Caro Mello

    Caberia agora a seguinte indagação:
    - A Nobre ministra entrou, entrará ou cogita entrar com uma ação por danos morais cota a Folha?
    Outra questão: Um "erro" ( fraude ) desta natureza não seria objeto de uma punição exemplar, inclusive com o impedimento de circulação deste jornal, a título didático por, por exemplo 3 dias?

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