domingo, 28 de novembro de 2010

Polícia tomou o Alemão, e agora? Para refletir: 'Violência no Rio: a farsa e a geopolítica do crime'


Nós que sabemos que o “inimigo é outro”, na expressão padilhesca, não podemos acreditar na farsa que a mídia e a estrutura de poder dominante no Rio querem nos empurrar.

Achar que as várias operações criminosas que vem se abatendo sobre a Região Metropolitana nos últimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem, representado pelas forças publicas de segurança, e o mal, personificado pelos traficantes, é ignorar que nem mesmo a ficção do Tropa de Elite 2 consegue sustentar tal versão.

O processo de reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro vem ocorrendo nos últimos 5 anos.

De um lado Milícias, aliadas a uma das facções criminosas, do outro a facção criminosa que agora reage à perda da hegemonia.

Exemplifico. Em Vigário Geral a polícia sempre atuou matando membros de uma facção criminosa e, assim, favorecendo a invasão da facção rival de Parada de Lucas. Há 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se pacificaram pela ausência de disputas. Posteriormente, o líder da facção hegemônica foi assassinado pela Milícia. Hoje, a Milícia aluga as duas favelas para a facção criminosa hegemônica.

Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em várias favelas. Sabemos que as milícias não interromperam o tráfico de drogas, apenas o incluíram na listas dos seus negócios juntamente com gato net, transporte clandestino, distribuição de terras, venda de bujões de gás, venda de voto e venda de “segurança”.

Sabemos igualmente que as UPPs não terminaram com o tráfico e sim com os conflitos. O tráfico passa a ser operado por outros grupos: milicianos, facção hegemônica ou mesmo a facção que agora tenta impedir sua derrocada, dependendo dos acordos.

Estes acordos passam por miríades de variáveis: grupos políticos hegemônicos na comunidade, acordos com associações de moradores, voto, montante de dinheiro destinado ao aparado que ocupa militarmente, etc.

Assim, ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadan Husein, e depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?

Ela é simplesmente uma guerra pela hegemonia no cenário geopolítico do crime na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

As ações ocorrem no eixo ferroviário Central do Brasil e Leopoldina, expressão da compressão de uma das facções criminosas para fora da Zona Sul, que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimpíadas.

Justificar massacres, como o de 2007, nas vésperas dos Jogos Pan Americanos, no complexo do Alemão, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a existência de várias execuções sumárias é apenas uma cortina de fumaça que nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda, porque oculto e hegemônico.

Ônibus e carros queimados, com pouquíssimas vítimas, são expressões simbólicas do desagrado da facção que perde sua hegemonia buscando um novo acordo, que permita sua sobrevivência, afinal, eles não querem destruir a relação com o mercado que o sustenta.

A farsa da operação de guerra e seus inevitáveis mortos, muitos dos quais sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no tabuleiro geopolítico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar que ausência de conflitos é igual à paz e ausência de crime, sem perceber que a hegemonização do crime pela aliança de grupos criminosos, muitos diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Milícias provou, perpetua nossa eterna desgraça: a de acreditar que o mal são os outros.

Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime? Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos esquecemos que sua única finalidade é a hegemonia do mercado do crime no Rio de Janeiro?

Mas não se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade.

Sempre sobrará a massa arrebanhada pela lógica da guerra ao terror, reduzida a baixos níveis de escolaridade e de renda que, somadas à classe média em desespero, elegerão seus algozes e o aplaudirão no desfile de 7 de setembro, quando o caveirão e o Bope passarem.

José Cláudio Souza Alves é sociólogo, Pró-reitor de Extensão da UFRRJ e autor do livro: Dos Barões ao Extermínio: Uma História da Violência na Baixada Fluminense. O artigo foi originalmente publicado na Coluna do Leitor da CartaCapital.

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12 comentários:

  1. Henrique28.11.10

    Tudo começa assim, filosofando nas entranhas do processo repressivo. Logo as forças legais serão consideradas ilegais; os traficantes ilegais jovéns legais. Esse tipo de filosofia,procurar cabelo em ovo, não está com nada! Os policiais e militares foram recebidos a tiro, ora se é assim terão de aguentar tiros também! Precisamos fundar uma ONG pró militares/policiais. NOTA: não sou militar nem policial, mas estou com eles e não abro. Além do mais, vamos evitar ao máximo sim, mas somente se inocentes pagarem pelos culpados é que se consegue limpar! É doloroso, mas é a verdade; negar seria uma demonstração de cinismo.

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  2. Anônimo28.11.10

    Mas então o que fazer? deixar do jeito que está pra ver como é que fica?

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  3. Mello, mizifiu
    Responda-me sem refletir:
    Quem é o gênio que 'engenheira' a logística do narcotráfico, coisas como, financiamento, produção, insumos, transporte, armas, distribuição ...)? Não me responda que são os pretos e pobres dos morros, detentores que são de títulos de doutores honoris causa, FhD, Master, pós-pós, MBA e o escambau a quatro!
    Porque o filme Meu nome não é Jonhnny foi considerado apologista do consumo de drogas? E só isso.

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  4. Anônimo28.11.10

    Mello, ja critiquei artigos no seu blog e elogiei outros.Portanto,nao sou sua fã incondicional. Mas o admiro no seu papel provocador. Considerei sensacional a cobertura que tem dado ao circo que foi montaddo, novamente, no Complexo do Alemão.Traficantes nao estao mais la, pobres e negros serao mortos em seus lugares.Mais uma vez...Ana Candida

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  5. Azarias28.11.10

    Vamos ver, vamos ver!
    O comportamento dos Deputados Federais e dos Deputados Estaduais(recém-eleitos), aliados dos "quem" alimenta o tráfico, no ano que vem.
    Conforme este comportamento saberemos se tudo continua na mesma.
    Que tal o Banco Central fazer uma auditoria nos tres principais Bancos Privados do país e se apropriar do dinheiro do tráfico ali depositados?

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  6. Olá, Mello!

    Com o espetáculo piro-midiático recém-registrado no Rio, é fato que estamos diante de um novo motivo para reflexões, discussões, afirmações, negações e interrogações - tal a complexidade do tema. Os envolvimentos são muitos e diversos, penso. Os personagens também, acho.
    Neste primeiro momento do episódio Vila Cruzeiro-Alemão, também entendo como válido pensar nos muitos vieses dessa questão ampla.
    Só pra provocar, coloco um dado na discussão: seria interessante e oportuno também fazer um pente-fino no Judiciário - principalmente botando pra correr (eliminando mesmo) juízes, desembargadores e ministros reponsáveis pela soltura imediata de bandidos comprovados após prisões comprovadamente legais e legítimas. E recolocar na cadeia os que já comprovadamente se apropriaram da dignidade nacional. A começar por Daniel Dantas e Gilmar Mendes - um na cadeia e o outro, também.
    Um abraço

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  7. Ah, tá. Mais um "sociólogo". O Brasil esta bem de sociólogos, obrigada. Até agora só nos causaram problemas, vide o Príncipe deles.
    O artigo é um exercício pedante (como sempre) de "sociologuês".
    O último parágrafo destila bem o veneno do que ele pensa do povo: somos um bando de idiotas, só ele é esclarecido.
    O tráfico nunca vai terminar, não é essa questão. E nem ele quer que seja, tá pouco se lixando, na verdade. Eles querem é perpetuar a aflição e o julgo daquela gente que vive sob o regime de terror do crime organizado. Querem, de toda forma dizer que a tentativa de liberação das favelas, ou a pacificação delas, é uma coisa ruim. Pessoas pobres vão morrer na mão dos militares! Oh, Oh, horror...!até parece que alguem se incomoda com isso. Preferem que eles morram na mão dos traficantes, todo dia.
    Vai perguntar pro pessoal que mora lá, o que eles estão achando disso tudo. Tenho certeza que vão se surpreender. Ou não, já que somos todos idiotas.

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  8. Anônimo29.11.10

    Eu gostaria de saber quem é os rockefellers das milicias?
    O negócio é ter o MUNDO na mão seja como for de ARCO E FLECHA ou CAnhão................................................http://atlantidadeplatao.blogspot.com/

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  9. Beto Lima29.11.10

    Gande Mello. Aprovocação é saudável, mas este senhor que escreveu este artigo, deve estudar um pouquinho mais sobre a situação no Rio. Dizer que tudo o que está sendo feito, praticamente de nada vai adiantar, é querer brincar com a inteligência de milhões de pessoas.

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  10. Prezado Mello, como vai?
    Vc que é aí da Cidade Maravilhosa .. me diga
    É ou não é constrangedor, revoltante ...

    Morador é roubado em R$ 31 mil após ter casa arrombada na Vila Cruzeiro - Rio

    http://www.youtube.com/watch?v=iQSMxV-IBYE&feature=player_embedded

    (fonte: Conversa Afiada)

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  11. Ei, amigos. Que há um circo midiático no Rio não se discute. A mídia quer audiência. Agora que há traficantes no Complexo do Alemão praticando crime e aterrorizando a população há. Não interessa se eles são frutos de desigualdade social (Estima-se em 400.000! o número de moradores (todos pobres) os traficantes se fossem 10% disso no Alemão seria 40.000. Não dá nem 1%. Os outros 99% não são na sua maioria negros também? não são pobres também? por que ão foram para o tráfico? Não interessa os motivos. Se forem bandidos têm que enfrentar a lei. Não interessa se são as patricinhas que cheiram o pó. eles vendem e isso é crime. Temos que zelar pelos direitos humanos e criticar a banalização da vida. Mas os policiais que estão levando tiro de balas traçantes são o quê? milionários por acaso? vtnc.

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  12. Anônimo1.12.10

    Para a maioria da população, polícia boa é bem aparelhada e bem paga, e criminoso bom é criminoso morto e não dando gasto em penitenciárias comendo as custas de impostos que todos pagam com dificuldades.
    Mas como no Rio polícia é mal paga, desaparelhada e a maioria dos seus agentes passam necessidades e bandidos não podem ser abatidos por que tem a proteção de sociólogos, direitos humanos, oab e etc.
    Então milicias e traficantes dividem o poder e os lucros nos morros do Rio, uns com drogas , outros com vendas de net botijão de gás e etc.
    Culpa de um governo e uma política falida.

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