sexta-feira, 22 de abril de 2011

Mais um ataque covarde contra Cuba, cheio de preconceito e acusações do tempo da guerra fria


"Cuba sem sinais vitais" é o título do artigo do jornalista Sandro Vaia, publicado no Blog do Noblat. Repete às vezes com as mesmas palavras textos que qualquer um de nós que temos blogs que defendem a revolução cubana costumamos receber.

A diferença está no preconceito e em quem o escreve. Sandro Vaia, segundo se lê ao final do artigo, "Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de O Estado de S.Paulo". O que deixa em maus lençóis todos aqueles que defendem os jornalistas e dizem que a culpa é dos patrões. Não é não. Alguns escrevem exatamente aquilo em que acreditam. E vivem como se estivéssemos no período pré golpe de 1964, seguindo a cartilha do embaixador americano Lincoln Gordon.

É uma ironia que a revolução que mais encantou e seduziu os corações e as mentes dos jovens nas décadas de 60 e 70 venha agonizando publicamente em imagens tão patéticas como essas que marcaram o VI Congresso do Partido Comunista Cubano: Fidel, 85 anos, ladeado pelo sucessor, seu irmão Raul, à beira dos 80 e seu vice Ventura, também de 80, encenando o “Escravos de Jó” da sucessão.

Uma geração no poder há 52 anos era sucedida pela mesma geração.

A gerontocracia no poder, no caso, é apenas o símbolo da falência de um regime e - mais do que isso - de um projeto de engenharia social que pretendia reformar a natureza egoísta do ser humano e esculpir um “homem novo” que a sociedade justa, humana e solidária livraria dos velhos vícios.

A revolução cubana foi um fracasso tão grande que, além de não atingir nenhum dos seus objetivos, não conseguiu sequer preparar uma nova geração apta a dirigir os destinos do país e introduzir alguma espécie de reforma para dar vitalidade a uma economia burocratizada e esclerosada, incapaz de suprir as necessidades básicas da sua população.

Não sei a idade de Sandro Vaia. Não sei também se ele está cheio de "Foi" no currículo por causa da idade e introjetou o que lhe impingiram os ex-patrões. Mas, criticar o governo cubano por causa da idade de seus dirigentes é muita falta do que falar. Ou o articulista acha que os últimos 20 anos de Oscar Niemeyer deveriam ser jogados no lixo?

Atenção: Não estou comparando a genialidade de Niemeyer com os dirigentes cubanos. Estou mostrando que o preconceito contra os idosos do articulista é apenas preconceito. Ou ele quer o argumento de um Picasso pelas costas?

Para além do preconceito há a desinformação travestida de verdade absoluta, dogma. No que Vaia se baseia para afirmar que a revolução cubana foi um fracasso total? Ele não diz. Porque não tem o que dizer. Em Cuba é garantido o direito à educação (até a Universidade) e à saúde gratuitas (inclusive com medicamentos) a todos os cidadãos.

Ninguém morre de fome em Cuba. Nem os que querem e se esforçam pra isso, como o dissidente Guillermo Fariñas Hernández, o ‘El Coco’, que fez duas greves de fome: uma durou sete meses (deve ser o maior faquir do mundo) e a outra 135 dias. Nesta, ele saiu 16 quilos mais gordo. Portanto, você que está pensando em emagrecer, não vá a Cuba.

À acusação que faz a Cuba, Vaia deveria mostrar contrapontos. Estados Unidos? Basta olhar a crise, o desemprego, a fome, a miséria, a situação da saúde no país ícone do capitalismo.

Ele pode citar os países nórdicos, onde não se morre de fome, mas de tédio. Mas já não pode colocar a Islândia na lista, pois ela quebrou, faliu com a crise provocada pela explosão das Bolsas.

Europa? Qual país não foi afetado pela crise?

E, no entanto, a pequena Cuba, mesmo com o embargo americano, que existe há mais de 50 anos e foi ampliado com Clinton, resiste. A apenas 150 km da maior potência do mundo, que tenta esmagá-la de todas as formas (leia aqui como Programa do governo dos EUA incentiva deserção de médicos cubanos que prestam serviço humanitário em vários países do mundo). A pequena ilha. Compare imagem do Google Maps:


Dizem que Cuba não é uma democracia. Que tem prisioneiros políticos. E Guantánamo é o quê? País paradigmático das liberdades e da democracia, os Estados Unidos defendem a tortura.

Para finalizar, recomendo a leitura do artigo de Gilson Caroni Filho, publicado na Carta Maior, que reproduzo a seguir, em que ele rebate uma reportagem cheia de desinformação da Folha:

Alaine Gonzáles e Reinel Herrera são trabalhadores autônomos cubanos. Ambos foram escolhidos pela jornalista Flávia Marreiro, enviada especial da Folha de São Paulo a Havana, como personagens errantes de uma economia em frangalhos. Seguindo um padrão de cobertura vigente há 50 anos, a repórter da elabora um texto com pouca informação e direcionamento enviesado, não somente sobre o país, no sentido político e econômico, mas principalmente sobre o povo, sua história, sua cultura e seus hábitos.

A enorme propaganda orquestrada contra o regime cubano acabou por criar, como subproduto previsto e planejado, uma imagem distorcida sobre os habitantes da Ilha, apresentados ora como guerrilheiros ferozes, desconhecedores de fronteiras, ora como prisioneiros, tristes e infelizes, de uma ditadura. É compreensível o sucesso desse tipo de campanha, quando se avalia o poder da rede de comunicação capitalista.

É natural que o jornalismo nativo não possa perceber a dinâmica que se apresenta aos seus olhos. Se Flávia Marreiro conseguisse se desvencilhar da viseira ideológica, talvez conseguisse enxergar os personagens com outras roupagens e expectativas. Alaine e Reinel, como o restante do povo cubano, têm consciência das suas dificuldades. Por outro lado, creem na revolução porque sabem que são participantes ativos de um processo tão rico quanto denso. Não se sentem impotentes diante dos problemas: reclamam e atuam dentro de uma estrutura política que lhes permite, independentemente do poder econômico ou dos conchavos políticos, resolver problemas que os afligem.

Como cidadão esclarecido, bem informado e politizado, o cubano é o verdadeiro crítico do regime. Critica e aponta saídas. Trabalha e, quando a nação necessita da sua presença, lá está ele, pronto para defender sua revolução com o seu próprio sangue. Aqueles que não quiseram trabalhar pela coletividade ou que sequer queriam trabalhar se foram pelo Porto Mariel, iludidos pela falsa propaganda que vinha dos Estados Unidos, onde pensavam encontrar dinheiro fácil. Flávia chegou tarde, com uma pauta envelhecida.

Nem Alaine, nem Reinel Herrera viveram os problemas da etapa anterior a 1959, quando o desemprego era superior a 16,4% e o subemprego estava em torno de 34,8%. Eles já vieram ao mundo num país de - praticamente- pleno emprego. Também não conviveram com as taxas de analfabetismo de 23,6%, nem com o sistema escolar que, de 100 crianças matriculadas nas escolas públicas, deixava 64 no meio do caminho, sem terminarem o 6º ano. Hoje, apesar de todos os problemas, a taxa de analfabetismo não chega a 3% e não existem crianças em idade escolar sem colégio.

Com uma assistência médica nacionalizada, nenhum dos dois conheceu o pais que concentrava 65% da população nas áreas urbanas, que tinha 70% da indústria farmacêutica controlados por empresas estrangeiras, em que a expectativa de vida era de 62 anos e a mortalidade infantil de 40 por mil nascidos vivos. Já a mortalidade materna era de 118,2 por 10 mil nascidos. Esses dados, por certo, não estão no departamento de pesquisa dos jornais dos Frias, Marinhos e Mesquitas. Flávia, a nossa brava repórter, talvez não disponha de outras informações que lhe seriam de extrema utilidade na cobertura da reunião do Partido Comunista Cubano.

Antes da revolução, menos de 2.500 proprietários possuíam 45% das terras do país e 8% das fazendas concentravam 71% da área disponível. Até 1959, somente 11,2% dos trabalhadores agrícolas tomavam leite, 4% comiam carne,1% consumia peixe. Na Cuba de Alaine e Herrera, o consumo de leite e carne é superior a todos os outros países do continente. Se nos anos 1980, quando os dois entrevistados nasceram, a implementação do processo revolucionário continuava, foi a década de 1960 que abriu caminho ao desenvolvimento econômico e, sobretudo aquela em que se resistiu às agressões armadas, bombardeios e à tentativa de invasão norte-americana que definiu o caráter socialista da revolução.

Todo o conjunto de medidas políticas e econômicas custou a Cuba o bloqueio econômico e diplomático imposto pelos Estados Unidos. A situação voltaria a se agravar após o fim da URSS e do bloco socialista, mas o colapso tão esperado pelo Império e seus sócios não veio.

O sistema econômico procurou proporcionar o desenvolvimento e o crescimento do país de uma forma igualitária. Ernesto Che Guevara, quando ministro da Indústria, ilustrou bem qual a diferença entre sistema econômico e desenvolvimento. Para ele, um anão enorme com tórax enchido é subdesenvolvido, porque seus curtos braços e débeis pernas não se articulam com o resto de sua anatomia. É produto de um desenvolvimento teratológico que distorceu suas formações sociais. A descrição sobre o restante da América Latina não podia ser mais precisa.

Se, de fato, o Partido decidir demitir 500 mil funcionários, enxugar o Estado e aumentar a produtividade, como relata a grande imprensa, a anatomia cubana não permite vislumbrar um mergulho na lógica fria dos ditames do mercado. A perspectiva que só a história dá, para avaliar em toda a sua dimensão, os erros e acertos, o processo que implantou, pela primeira vez, o socialismo na região, mostra um organismo social saudável, preparado para mudanças necessárias.

O célebre "mudamos ou afundamos" atribuído a Raul Castro não é, como supõe a matéria da Folha, a expressão dramática de uma situação. As crises permanentes que a revolução atravessou, impostas para fazê-la fracassar, fizeram com que a retificação de rumos e a concepção de novas ideias se tornassem elementos constitutivos da nação caribenha. Fátima Marreiro pode ter uma certeza: Cuba não afundará.

Criticar Cuba sem dar uma palavra sobre o embargo que tenta sufocá-la é desonesto. Não é crítica, é propaganda contra.

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