segunda-feira, 9 de maio de 2011

'Humor' de Rafinha Bastos é a alegria dos ressentidos


O revoltado, a alguns passos do revolucionário, quer transformar, mudar às vezes radicalmente. O ressentido não. Ele só quer destruir, se vingar, age negativamente contra si ou, mais comumente, contra os outros (de um existencialista a outro, pulo de Camus a Sartre: "o inferno é o outro").

Os outros são os deficientes físicos, os negros, índios, escravos... Os outros são as mulheres, os homossexuais, os pobres...

Sentindo que fracassaram na vida, que gente que consideram medíocre está sendo beneficiada, vangloriada, e ele não, o ressentido age para destruir essas pessoas, às vezes fisicamente, em geral apenas por palavras, piadas, humor...

Gente como Rafinha Bastos é uma válvula de escape para eles. Reportagem da revista Rolling Stones de maio publica que para Rafinha mulher feia não tem que reclamar se é estuprada:

"Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade."

Prossegue a reportagem:

Seus textos versam geralmente sobre preconceitos e termos politicamente incorretos. Durante os poucos minutos de suas apresentações, é possível passear por um rosário de sacanagens em cima de gordos, carecas, deficientes, cidadãos de Rondônia, judeus, golfinhos e pagodeiros. "A minha comédia não é feita pra todo mundo, véio. E eu não quero que seja. Até agora eu cheguei assim. Eu não preciso popularizar a minha comédia", ele fala, após um gole de refrigerante.

Há uma classe média ressentida no Brasil. Esse ressentimento se intensificou durante o governo Lula que passou a ser percebido como um governo que acolhe todos aqueles com quem eles, os ressentidos, não se identificam.

Aí está a raiz desse humor agressivo, preconceituoso, cada vez mais excludente. Um humor que tem alvo definido: os fodidos (e fodidos são todos aqueles que eles julgam inferiores social, cultural, sexual, etnograficamente).

Rafinha Bastos é mais um a se utilizar disso, Está faturando muito. Inclusive fazendo piada com o próprio filho ("trechos que falavam sobre como cumprimentar gente que não tem os braços, o que dizer para uma mulher virgem com câncer, e por que, depois que teve um filho, Rafinha passou a defender o aborto" [Fonte: a mesma reportagem]).

Rafinha Bastos está ganhando. Mas vai perder mais adiante, e seu humor será uma diversão anacrônica como os gladiadores entregues aos leões, os deficientes que eram atração em circos da Idade Média, a Farra do Boi, as rinhas de galo, o Casseta & Planeta, que apelou para isso e perdeu.

A agressão ao outro (via porrada mesmo ou humor) traz uma satisfação momentânea e ilusória como uma carreira de cocaína. Mas cobra a conta, com tristeza e degradação. Quanto mais cedo Rafinha Bastos e seu público saírem dessa, melhor pra eles - e pra nós.

Termino com um poema de Vielimir Khlébnikov:

ENCANTAÇÃO PELO RISO

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

Tradução de Haroldo de Campos

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