terça-feira, 21 de junho de 2011

Leitor do blog comenta que problemas de comunicação derrotaram governos do PT no RS. Gaúchos, o que acham?


Eugênio, leitor do blog, deixou um comentário na postagem Contribuição à distância ao #2BlogProg: Governo ainda não entendeu a importância da comunicação e resolvi subi-la para discussão com vocês. E também para manter acesa essa questão da comunicação, não só do ponto de vista de forma e conteúdo, mas da necessária, urgente horizontalização através da implantação do PNBL.

O trecho a seguir é integralmente do Eugênio. O que está entre aspas (também colocadas por ele) são partes da minha postagem que ele destacou.

Quando uma tapioca pode derrubar um governo

"Por isso, nada adianta, ministro, fazermos o saneamento básico, levar educação e saúde de qualidade, se não soubermos também comunicar o que estamos fazendo."

É sempre reconfortante saber que alguém diz com as mesmas palavras aquilo que nós mesmos dizemos o tempo todo, de tal forma que nos livra daquela desagradável sensação de estar desenvolvendo um pensamento obsessivo, virando escravo de uma idéia fixa ou percebendo alguma coisa que ninguém percebe.
Pois isso que vc diz já aconteceu em Porto Alegre. O PT perdeu o poder aqui, depois de 16 anos na prefeitura, exatamente da forma que vc descreve.

"Já a história que a oposição - há tempos subsidiada, mas hoje assumidamente liderada pela mídia corporativa - quer contar é a seguinte: Este é um governo demagógico, que se vale de bolsas e transferência de renda para vagabundos, numa compra indireta de votos; é um governo de petralhas, de cumpanheros enriquecendo como nunca; uma república sindicalista, com bolsa de estudo para pobre, tudo para os pobres, com o objetivo de continuar vencendo as eleições e poderem roubar ainda mais."

Não bastou ao PT ter projeto político, ter feito a melhor administração que essa cidade já teve, ter criado o orçamento participativo, ter nos colocado no mapa do mundo com FSM. Nada disso foi suficiente para fazer com que a população entendesse que aquele era um governo diferenciado de tudo quanto havíamos experimentado antes em termos de administração pública. Nossa população simplesmente não entendeu o ineditismo da experiência, nem de longe apercebeu-se do que acontecia a sua volta.

E por que isso? Porque num mundo midiatizado o que importa não é fazer, mas dizer que faz.
As esquerdas insistem na idéia de que o povo é depositário de toda a sabedoria e tem como distinguir, na hora certa, o que é da sua conveniência ou não. Aqui no RS, o PT apostou nisso e perdeu o governo do estado e a prefeitura. Por mais erros que o PT tenha cometido, nada explica a derrota para um Rigotto, com seu papinho de "união pelo rio-grande", e de um Fogaça com o "manter o que está bom e mudar o que está ruim", a não ser um povo muito desinformado. Podem considerar minha argumentação elitista, mas eu não falo apenas do povão. Conheço muitos acadêmicos e doutores que entraram nessa.
Vencer uma eleição hoje, significa deter os meios, criar uma versão e repeti-la exaustivamente, até que todos se convençam da sua "veracidade". Isso nada tem a ver com a honestidade das propostas ou a realidade objetiva. Quero que alguém me convença do contrário. E nesse processo de "convencimento" a mídia desempenha papel central.

Tanto que conseguiu um feito inédito ao transformar a capacidade de realizar obras por parte da prefeitura, que sempre foi tida como uma espécie de marca registrada da competência dos partidos e dos políticos, em algo problemático para a administração petista. As obras da prefeitura "atrapalhavam" a vida da cidade. A mídia difundiu esse discurso de tal maneira que ele grudou que nem bosta em tamanco no imaginário dos porto-alegrenses. No mundo midiatizado, a "realidade" subjetiva é muito mais importante que a realidade objetiva. As pessoas caminhavam em cima das obras da prefeitura, mas diziam que o PT não fazia nada e quando fazia, "atrapalhava", repetindo o discursinho vagabundo dos venais deformadores de opinião da mídia. As obras e as melhorias estavam ali, a vista de todos. Mas o Lasier - pau mandado da RBS, repetidora da Globo - falava no jornal do almoço, repetia no jornal da janta, dia após dia, mês após mês, ano após anos, que aquilo que as pessoas viam não era real, que o "real" era o que ele apresentava como sendo a "realidade". Associe-se a isso um alto grau de despolitização dos eleitores e o cenário está pronto para o golpe da tapioca.

"Perderam mais uma vez. Mas, aos pouquinhos, na timeline da comunicação, vão construindo seu roteiro, deixando registrados os papéis que querem destinar ao governo: corrupto, antidemocrático, defensor da censura, populista."

E tanto fizeram que tiraram o PT da prefeitura e do governo do estado, usando esse discursinho vagabundo.
Mas muitos petistas daqui dizem que a atuação da mídia foi irrelevante. O que "matou" mesmo o partido foram as disputas internas e as brigas de tendência, mesmo quando sabe-se que a quase totalidade dos eleitores nem sabem que o PT tem tendências internas e que elas disputam entre si.

Dimensionar fenômeno mídia em toda a sua amplitude, significa compreender seu papel como instrumento de poder ou como sendo o próprio poder. Esta é uma percepção de poucos. É alarmante constatar o quanto as pessoas rendem-se ao fetiche desse poder, mesmo quando, por dever de ofício, deveriam ser mais cautelosas em relação a ele. E esta rendição assume contornos catastróficos, quando essas pessoas são do campo da esquerda. A esquerda, em todos os seus matizes e por tudo o que tem demonstrado, parece incapaz de formular uma análise precisa sobre o papel da mídia hegemônica.

Os petistas da era do mimeógrafo que operam numa lógica cartesiana, continuam acreditando que basta a "...luta mais obstinada do meu governo...pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos'" para ganhar a parada da direita dona da mídia. "Por isso, nada adianta, ministro, fazermos o saneamento básico, levar educação e saúde de qualidade, se não soubermos também comunicar o que estamos fazendo."

O recuo do governo na questão da banda larga, por exemplo, não foi só político. Também teria sido por questões econômicas, pois não haveria dinheiro para bancar o projeto como ele foi inicialmente pensado. Não teria dinheiro??? Coloque-se os 62 bi dos mega delírios copa-olimpíadas a financiar o projeto de banda larga, para ver o que acontece. Mas aí estamos falando de prioridade. "Parece que o ministro" (e Dilma também) "ainda não percebeu que a batalha das comunicações (e, portanto, do acesso à informação) é tão importante hoje em dia quanto o saneamento básico, o acesso à educação e à saúde."

Universo simbólico, subjetividade, subliminaridade, manipulação e outras "cositas" mais do mundo da comunicação, são o mesmo que grego para as esquerdas em geral e o PT, em particular. Para eles basta seguir os ensinamentos de Marx (isso quando seguem) e estará tudo resolvido.

É só a crise internacional respingar com mais intensidade no Brasil, para que a direita, controlando a mídia com sua mão de ferro, crie as condições subjetivas através de um "blablablás lacerdistas", para repetirmos em escala nacional o que já aconteceu em Porto Alegre.

Porque eu acredito piamente que uma tapioca bem "midiatizada" pode derrubar um projeto político e um governo.

Eugênio

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