segunda-feira, 5 de outubro de 2015

'A DIREITA NA AMÉRICA LATINA PODERÁ VENCER ALGUMAS BATALHAS, MAS NÃO A GUERRA'



Cristophe Ventura


Numa excelente entrevista ao Público, Espanha, Cristophe Ventura, doutor pela Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais de Paris e colaborador do Le Monde Diplomatique, analisa os desafios da América Latina e dos governos progressistas da região, sob ataque dos reacionários, mas também sentindo necessidade de mudanças.

América Latina deve definir o seu papel num mundo em mudança. E, mais importante ainda, enfrentar o desafio de fortalecer seu projeto de integração regional, uma chave para completar o processo de autonomia.

Trechos da entrevista:

A América Latina tem muitas das coisas que as potências econômicas mundiais pretendem. A região tem grande quantidade de recursos naturais, provavelmente os mais importantes do mundo. Estima-se que a população mundial alcance 10 bilhões de pessoas em 2050, é enorme a necessidade de produção agrícola que o mundo vai precisar, e a América Latina tem um quarto das terras cultiváveis disponíveis. O projeto dos EUA é muito claro: recuperar a hegemonia que tinha na região através de novos relacionamentos com países latino-americanos - o tema Cuba faz parte disso - para que empresas estadunidenses possam contar com recursos energéticos. Por seu lado, a China pretende propor outras condições, que não as dos EUA, mas também para garantir esses recursos.

(...) a relação da China é muito diferente do tipo de dominação que os EUA tinham e que pretendem recuperar. Não há interferência da China na vida política dos países latino-americanos. Nenhuma presença militar, ainda. Não há uma relação de dominação. Além disso, as condições econômicas oferecidas pelo governo de Pequim são mais interessantes do que as do FMI ou do Banco Mundial. Mesmo que isso envolva uma hipoteca sobre matérias-primas, é mais fácil para os países latino-americanos terem relações financeiras com a China do que com os EUA ou o sistema bancário global.

(...) [Os governos progressistas] entraram em um momento crítico, porque as condições econômicas e geopolíticas que apoiaram suas políticas falharam com a crise global. O modelo está se esgotando, mas isso não significa que os governos tenham morrido ou que o ciclo está morto, isso dependerá das decisões a serem tomadas a partir de agora. Se eles não puderem melhorar a gestão econômica, se eles não puderem mudar o modelo de produção, então, sim, vão fracassar. Sua margem de manobra depende das políticas de aproximação com a China e outros parceiros globais e da cooperação entre os países da região para construir infraestruturas e promover um mercado interno comum. Não é fácil, mas não impossível. 

(...) O país-chave é o Brasil. Tudo depende da decisão do governo brasileiro, que infelizmente estamos vendo agora está acenando para a direita por razões internas. Não é um problema de dirigentes, mas de estruturas e de criar um motor econômico para impulsionar a política. Os dirigentes vêm mais tarde, seu papel começa quando os motores avançam. Se o Brasil se alinha com as correntes dos mercados internacionais, tudo se bloqueará na América Latina.

(...) Até o momento, a direita não tem apoio popular. As pessoas podem criticar governos, mas não querem a volta ao poder de uma direita que conhecem bem. Tudo depende da mobilização dos eleitores. Se a direita retorna ao governo, eu não acho que isso vai ser por muito tempo. Apesar da crise global, apesar da crise de governos progressistas, a direita não tem a capacidade de oferecer uma alternativa. Eles podem mobilizar os seus setores, talvez integrando parte da classe média para vencer batalhas, mas não a guerra.

A entrevista como já disse é excelente e deve ser lida na íntegra aqui.


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Madame Flaubert, de Antonio Mello

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