quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Quer saber por que Trump venceu? O cineasta Michael Moore, que antecipou essa vitória em julho, explica





O cineasta Michael Moore, profundo conhecedor dos Estados Unidos, que nos revelou com seu humor peculiar em filmes documentos como Tiros em Columbine, Sicko, Fahrenheit 9/11, Capitalismo: Uma História de Amor, escreveu um artigo, em 28 de julho deste ano, com o título "Cinco razões pelas quais Trump vai vencer as eleições". Acertou em cheio.

Moore faz uma análise bem a seu estilo e eu traduzi e resumi boa parte do artigo, que é relativamente extenso (mas vale ser lido na íntegra), e reproduzo a seguir. Quem está tentando entender como Trump, contra todas as previsões e também contra todo o establishment venceu as eleições, taí uma excelente explicação de um profundo conhecedor da alma dos EUA.

Queridos amigos,

Sinto ser aquele que vai lhe dar más notícias, mas já os adverti no verão passado, quando disse que Donald Trump seria o candidato Republicano à presidência. E agora trago notícias ainda piores e mais deprimentes: Donald J. Trump vai ganhar as eleições em novembro. Este ignorante, perigoso e miserável palhaço em tempo parcial e sociopata em tempo integral será o próximo presidente dos Estados Unidos. Presidente Trump. Vamos, vai praticando, porque será assim que teremos que nos dirigir a ele durante os próximos 4 anos: Presidente Trump.

Não tenho dúvidas de que se as pessoas pudessem votar do sofá de sua casa através do Xbox ou do PlayStation Hillary ganharia de goleada. Mas nos Estados Unidos as coisas não funcionam assim. A gente tem que sair de casa e esperar numa fila para votar. E se vivem em bairros pobres com maioria de negros ou de hispânicos não só terão que fazer uma fila ainda maior como farão todo o possível para que eles desistam de votar. Por isso é que na maioria das eleições é difícil que a porcentagem de participação chegue sequer a 50%.

Aí está um problema de novembro: Quem vai conseguir votantes mais motivados para irem às urnas? Você sabe a resposta a essa pergunta. Quem é o candidato com os simpatizantes mais ferrenhos? Quem tem fãs capazes de levantar-se às cinco da manhã no dia das votações e fazer um churrasco para assegurar-se de que todo vizinho vote? Efetivamente, esse é o nível de perigo em que nos encontramos.

Estas são as 5 razões pelas quais trampo vai ganhar:

1. O Brexit do meio-oeste dos Estados Unidos. Creio que Trump vai centrar grande parte de sua atenção aos quatro Estados azuis de Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. São quatro Estados tradicionalmente Democratas, mas que vem elegendo governadores republicanos desde 2010. Nesses estados Trump vai atacar Clinton por terem apoiado, ela e o marido, políticas de comércio que prejudicaram os habitantes desses quatro Estados. Durante as primárias de Michigan, Trump ameaçou a empresa Ford Motor: se seguissem adiante com o fechamento de fábrica na cidade como estava previsto e se mudassem para o México, meteria um imposto de 35% em cima de todos os carros construídos no México que fossem enviados aos Estados Unidos. Isso foi música para a classe trabalhadora de Michigan. Quando lançou outra ameaça a Apple e disse que os obrigaria a deixar de fabricar iPhones na China e a fabricá-los nos Estados Unidos todos ficaram admirados.

O que aconteceu com o Brexit no Reino Unido também vai acontecer aqui. O que se está dizendo a essas pessoas desempregadas e sem perspectivas é: Esta é a sua oportunidade! De acabar com todos, todos os que fizeram ruir seu sonho americano. E agora Donald Trump, o forasteiro, chegou para limpar tudo. Você não precisa estar de acordo com ele! Ele é o seu coquetel molotov pessoal, que pode ser lançado sobre os que fizeram isto! FAÇA-OS OUVIR! TRUMP É O VOSSO MENSAGEIRO!

2. O último bastião dos homens brancos irritados. O Governo dos Estados Unidos que nos últimos duzentos e quarenta anos foi dominado pelos homens chega a seu fim. Uma mulher está a ponto de chegar ao poder! Como isso foi acontecer? Diante de nossos narizes. Havia sinais de perigo. Os ignoramos. Nixon, o traidor do gênero, impôs uma lei em que nos colégios as alunas deveriam ter as mesmas oportunidades na hora de praticar esportes. E logo as deixaram pilotar aviões comerciais. E antes que nos déssemos conta, Beyoncé revolucionou o Super Bowl com um exército de mulheres negras com o punho erguido deixando claro que a nossa dominação havia terminado. Onde fomos parar!

Esse é um pequeno resumo da mente do homem branco em perigo de extinção. Tem a sensação de que o poder foge de suas mãos, sua maneira de fazer as coisas já não é a maneira com que se fazem as coisas. A "feminazi", esse monstro que, disse Trump, "sangra pelos olhos ou por onde seja", nos conquistou e agora, depois de ter passado por oito anos em que um homem negro nos disse o que fazer, vamos ter que aguentar oito anos em que uma mulher nos mande? Depois disso serão oito anos de gays dirigindo a Casa Branca!  E logo transexuais! Já vejo onde vão parar as coisas. Mais adiante, vão conceder Direitos Humanos aos animais e o presidente do país será um hamster. Isto tem que acabar!

3. O problema de Hillary. Trump não é o maior de nossos problemas, é Hillary. É muito impopular: 70% dos votantes pensam que ela não transmite confiança nem honestidade. Representa a política tradicional e não crê em nada que não seja o que a faça ganhar as eleições. Por isso esteve contra o matrimônio homossexual em um momento e agora o defende. Entre seus maiores detratores se encontram as mulheres jovens. Os jovens não gostam dela, e não há um dia em que eu não ouça um millennial dizer que não vai votar nela. Nenhum Democrata vai se levantar emocionado no dia 8 de novembro para ir votar em Hillary, como aconteceu quando Obama ganhou ou quando Bernie Sanders era candidato nas primárias. Falta entusiasmo. E como estas eleições só vão depender de uma coisa - de quem atraia mais gente às urnas- Trump vai ganhar.

4. O voto deprimido dos eleitores de Bernie Sanders. Não  precisamos nos preocupar porque os simpatizantes de Bernie vamos votar em Clinton. Não é preciso se preocupar. Segundo as pesquisas, o número de seguidores de Sanders que vão votar em Hillary este ano será maior que o número de simpatizantes de Clinton que votaram em Obama em2008. Esse não é o problema. O que deve nos alarmar é a forma com que o simpatizante médio de Bernie vai às urnas no dia das eleições votar em Hillary, com relutância. É o que chamo de um "voto deprimido" (o que significa que o votante não vai levar 5 pessoas com ele para que votem também, que não se apresentou como voluntário para fazer campanha e não demonstra entusiasmo quando perguntado sobre o porquê de votar em Hillary: um votante deprimido). Porque, quando se é jovem se tem Tolerância Zero ante os farsantes e as mentiras. Para gente jovem, voltar a era Clinton/Bush é como ter que pagar de repente para escutar música, vou voltar a usar MySpace ou a levar um telefone celular numa maleta de tão grande. Eles não vão votar em Trump. Mas muitos vão se limitar a ficar em casa.

5. O efeito Jesse Ventura. Por último, é preciso não desconsiderar a capacidade do eleitorado de fazer o mal ou subestimar quantos milhões de cidadãos se acham a si mesmo anarquistas disfarçados a quem basta que se feche a cortina para exercer seu direito ao voto. Um dos poucos lugares que restam na sociedade em que não há nem câmeras de segurança, dispositivos de escuta, nem sua companheira ou companheiro, filhos, nem sequer limite de tempo. Pode ficar ali o tempo que quiser e ninguém pode te obrigar a fazer nada. Pode votar no partido que quiser ou no Mickey Mouse e o Pato Donald. É precisamente por isso e pela ira que têm alguns contra um sistema político inservível, que estadunidenses vão votar em Trump, não por estarem de acordo com ele nem porque gostem da intolerância e do ego que o caracterizam, mas simplesmente porque podem fazê-lo. Para ver o mundo arder e chatear papai e mamãe.

Recordemos quando nos anos 90 os cidadãos de Minnesota elegeram como o governador um ex-lutador profissional. E o fizeram não porque era um estúpidos ou porque pensaram que Jesse Ventura era um político célebre ou intelectual. Simplesmente porque podiam. Minnesota é um dos Estados mais inteligentes do país. E também está cheio de cidadãos com gostos pelo humor negro. Assim para eles votar em Jesse Ventura foi como fazer um chiste prático em um sistema político inferno. E é o que vai voltar a acontecer com Trump.

Outro dia, fui parado por uma pessoa na rua que me disse: "Mike, temos que votar em Trump, TEMOS que mudar as coisas".  Isso foi tudo. Para ele, era suficiente. "Mudar as coisas". De fato, é o que Trump faria, e grande parte do eleitorado gostaria de ser espectador desse reality show. [Leia a íntegra aqui, em inglês, ou na tradução em espanhol aqui]

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