sábado, 14 de janeiro de 2017

Os abutres têm sede



Aproveitando os termais, o abutre descreve círculos no céu imensamente azul do deserto.
 Observa lá embaixo o homem caído.
 Há muito o persegue, esperando por esse momento.
 Todos os outros abutres do bando já haviam desistido. Mas ele não.
 O homem também não.
 Ao menos até aquele momento, quando caiu perto de uma árvore seca.
 Estão há dias sem comer ou beber e, num raio de quilômetros, não há nada para saciar a fome ou a sede.
 A não ser um. E outro.
 E os abutres têm sede.
 Por experiências anteriores, ele sabe que a maior parte do corpo do homem é água.
 Ele pousa na árvore.
 O homem não esboça reação. Está morto.
 Mais sedento que faminto, o abutre salta sobre o homem para descobrir, surpreso, que ele ainda não havia desistido, e agora segura firmemente seu pescoço pelado com uma das mãos, enquanto a outra golpeia-o com uma faca, fazendo o sangue espesso jorrar diretamente para uma boca seca e poeirenta.
 Porque os homens também têm sede.

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