segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

'Trump está louco e é burro'. Uma entrevista com Michael Wolff, autor de 'Fire and Fury', biografia não autorizada que enfureceu Trump

Exemplares de Fire and Fury

Tempo estimado de leitura: 7 minutos e 40 segundos

Entrevista publicada no Huffington Post, Espanha. Tradução do Blog.

Um dos homens que mais irritou Donald Trump nos últimos meses espera impassível, sentado em um sofá, enquanto pede um café, para começar a entrevista. É o contraponto perfeito à hiperatividade e perda de controle do presidente dos Estados Unidos. O jornalista Michael Wolff (New Jersey, 1953) pode se vangloriar de que Trump não quer que seu livro Fire and Fury seja lido. Exatamente por isso, o trabalho, que narra as entranhas da Casa Branca durante os primeiros meses da Administração Trump, está sendo um dos mais lidos e vendidos nos Estados Unidos.

Para a elaboração do livro - com o qual se estima que o jornalista poderá ganhar mais de sete milhões de dólares -, Wolff fez mais de 200 entrevistas, inclusive com o próprio presidente. "Trump disse que tudo o que aparece no livro é falso, mas isso só confirma que tudo no livro é verdadeiro", ele enfatiza calmamente.


HP - Trump assegura que só falou com você uma vez e por apenas alguns minutos.

É totalmente falso. Estive cara a cara com Trump por três horas durante o período de transição presidencial. Gostaria de salientar que, literalmente, tudo o que Trump disse sobre este livro são pura recreação da realidade. É o que acontece com a maioria das coisas que diz.

HP - A partir da leitura do livro se fica com a certeza de que Trump vive em outro mundo, em uma realidade paralela.

Sim. Não reconhece o contexto. Ele é um homem sem controle sobre seus impulsos. Vive o aqui e agora. O que ele sente em um determinado momento é o que ele acha que é o certo.

HP - Antes de ser eleito presidente, a frase "Trump is Trump" foi usada como um mantra,  uma maneira de justificar tudo o que ele faz ou diz. Mas na realidade, quem é Trump?

Não sei se a frase "Trump is Trump" é usada mais para justificar do que para explicar o que acontece. E o que significa é que ele vive em uma realidade paralela, ele não se sente vinculado à lógica, à verdade, à experiência. Em parte, tem sido assim toda a vida e funcionou para ele: pensar que ele está sempre certo e que sua realidade é o que ele pensa ser, contra o que realmente é. Suponho que é fácil fazê-lo se você herdou uma fortuna e se seus negócios se tornaram um negócio de ilusões. Isso acaba transformando você em pura ilusão. A "realidade" de Trump não é esta. Ele não foi um homem bem-sucedido, ele não era um empresário imobiliário de sucesso, nem é um homem rico no nível que pretendia. Que não fosse nada disso, não era importante, apenas fingi-lo era suficiente. Em termos de marketing, ele se tornou o melhor ator de um reality show.


    Perguntei a Trump qual era o seu objetivo e ele me disse que era tornar-se o homem mais famoso do mundo



HP - A ideia de força de "Fire and Fury" é que nem Trump nem sua equipe queriam ganhar as eleições. Que o objetivo final era que a derrota eleitoral os tornaria mais famosos, mais poderosos. É uma tese que a priori não faz muito sentido.

Durante a campanha, perguntei a Trump qual era o seu objetivo e ele mesmo me disse que era tornar-se o homem mais famoso do mundo. Apresentar-se em uma eleição presidencial [dos EUA] é uma maneira muito eficiente de se tornar o homem mais famoso do mundo, inclusive economicamente, é uma forma bastante barata, já que outras pessoas lhe dão seu dinheiro para alcançar esse objetivo. Portanto, nos termos de marketing do "Mundo Trump" foi uma ótima idéia. A vitória revelou que ele não estava preparado, que ele não tem a experiência nem a formação necessárias, que nem sequer fez as coisas como deveria: ele não se protegeu ante tudo a que estaria exposto se ganhasse as eleições, como seus assuntos financeiros, a questão da Rússia, seus problemas com as mulheres ... O mais curioso é que de repente se cumpriu uma espécie de piada cósmica que afetou a todos, também Trump.

HP - O entorno de Trump não estava preparado para a vitória, faltava-lhes contatos em Washington e experiência política ... Como foram os primeiros cem dias da Administração Trump?

O problema é que o mundo estava em suas mãos. Você nunca poderia identificar as pessoas ao seu redor como uma Equipe A, mas em termos relativos eram profissionais. O desapontamento que vi neles nos primeiros sete meses que eu estive ali estava relacionado ao fato de que tínhamos uma pessoa que não sabia nada de nada, que não estava em condições de tomar decisões, que de fato não tomava decisões, que não ouvia ninguém, que não podia canalizar informações. E mesmo assim, de forma muito literal, era a pessoa que estava no comando, que impunha a centralidade em todos os aspectos. Era o Deus Sol.

HP - Como foi possível se tornar presidente dos Estados Unidos um candidato que, dois meses antes das eleições, se ouve dizer que se você é famoso "pode ​​pegar as mulheres pela vagina"? Na Espanha, é difícil compreender isso.

Também dos EUA é difícil de entender. Não há quase nenhuma lógica política para explicá-lo. Todos os que estavam ao seu redor pensavam que Trump não iria ganhar as eleições, e a revelação dessas conversas foi o que garantiu definitivamente que, de forma alguma, ele alcançaria a vitória. Para tentar encontrar uma certa lógica, as gravações geraram espanto e uma rejeição expressa da mídia, do establishment político e cultural, de todos os centros de poder tradicionais. De alguma forma, isso confirmou a seus seguidores que Trump era seu homem, um político fora do establishment. É o única coisa que me ocorre, uma explicação deve existir, mas não sei qual seja.

HP - O empresário Tom Barrack disse sobre Trump que ele não está louco, mas que é burro, estúpido. Está de acordo?

Bem, ele realmente disse que ele não é apenas um louco, mas também um estúpido [Risos]. Sim, eu concordo, Trump está louco e é estúpido.

HP - Reince Priebus, ex-chefe do gabinete de Trump, acaba de denunciar o caos e a desorganização da Casa Branca durante os meses em que esteve no cargo. "Pegue tudo o que você ouviu e multiplique-o por 50", ele disse.

É verdade, e mostra que descrevi Trump corretamente e com precisão. De qualquer forma, a realidade não é melhor do que o meu retrato.

HP - A conivência com a Rússia, o conflito com a Coréia do Norte, seus problemas com as mulheres ... Todos esses fatores podem acabar com a presidência de Trump?

Sim, tudo isso poderia acabar com ele. Se você olhar de cima, e este é um aspecto que confirma sua falta de preparo para ser presidente, tudo o persegue. Eu acho que, desde o início de sua carreira política, se prenuncia um acidente de trem. Estamos no trem e vemos o muro, mas não sabemos se está perto ou longe. O que temos claro é que em algum momento o trem atingirá o muro.


    Trump tinha talento para jogar com a mídia



HP - Acaba de dizer que para Trump todos [os meios de comunicação] o perseguem. Na verdade, essa é uma das principais queixas do presidente em relação à mídia. Ele sustenta que é criticado por tudo, quer faça bem, mal ou regular. Em que medida a mídia entrou nessa dinâmica, essa mesma mídia que, no início, levou Trump como uma piada, um chiste?

É uma pergunta muito boa, e a resposta não é inteiramente clara, pois ficou claro que Trump e a mídia mantiveram um relacionamento simbiótico porque Trump tinha o talento para jogar com a mídia, para manipulá-la. E esse jogo foi baseado em "conflito, conflito, conflito". Quanto mais conflito você cria, mais atenção você recebe. Esta é uma ideia que é realmente contra-intuitiva na política. Antes, o objetivo da política era buscar consenso e reduzir o conflito o máximo possível. Era o que os eleitores queriam e o propósito da política. Trump tem essa idéia isolada, é a expressão por excelência da equação conflito mais mídia, igual a atenção. E isso significa triunfo político, o que é o mais louco de tudo.


HP - Qual o papel da família Trump, Melania, Ivanka e Jared Kushner no dia a dia da Administração?

Ivanka e Jared são os dois principais conselheiros do presidente. É outro aspecto de quão absurda e caótica é esta Administração. Além do fato de que eles não têm experiência em política, o fato de que sejam parentes garante o caos na Casa Branca porque você não pode ter nenhum tipo de estrutura de gestão profissional. Quase todos os altos funcionários do presidente reconheceram esse problema desde o primeiro dia. Mas o pior é que eles não têm experiência. A respeito de seu casamento é outra coisa trumpiana muito óbvia: é claramente o que parece ser. Isto é, Melania e ele não têm relacionamento. Ele a apresenta de forma carinhosa como sua esposa troféu. Eles viviam separados, algo que é possível quando você é um magnata imobiliário, mas os quartos da Casa Branca são muito menores e eles têm que viver mais tempo juntos. Isso pode representar um ponto de ignição, talvez.

HP - Ivanka Trump poderia ser o primeiro presidente dos EUA?

[Risos] É totalmente ridículo, mas provavelmente menos ridículo do que a idéia de que Trump chegasse a ser presidente dos Estados Unidos. Pelo menos, se a Ivanka o conseguir, ele terá um pouco de experiência.

HP - Poderia dizer algo de bom sobre o Trump?

Sim, que é um bom vendedor.

HP - Quero dizer, como presidente dos EUA.

Sim, sim, de alguma forma é uma qualidade: o presidente dos EUA também deve ser um bom vendedor. Seu problema é que ele é apenas um vendedor. Só se interessa por você se acha que pode ajudá-lo a fechar uma venda, mas se perceber que não conseguirá lucros suficientes com você ou você resistir, então você já não importa. Você é apenas merda.

HP - Existe no dia de hoje alguma chance de que Trump provoque uma guerra?

Eu lhe dou outra perspectiva. É muito complicado ir à guerra. Você precisa mobilizar um governo inteiro, você precisa de muita informação, há muitos dados, você tem que prestar muita atenção ... Sabemos que o Trump está cercado por generais que, se lhes apresentam um Power Point, ele abandona a sala porque se entedia. Temos uma certa segurança, sabendo que a guerra é complicada e chata.

HP - Mas se o único que o preocupa é o seu ego, seu eu, a fama, que outra razão poderia ser melhor para conseguir isso do que ir à guerra?

Sim, vejo isso, mas a realidade é que a guerra é complicada. E você recebe o mesmo benefício apenas por ameaça, com isso você recebe a atenção. O fogo e a fúria.


    Vargas Llosa diz que ler meu livro é uma perda de tempo? Nunca consegui terminar um livro dele. Eu tentei.



HP - Trump tem duas obsessões: Coreia do Norte e China. Qual é a pior e qual pode desestabilizá-lo?

Nenhuma delas é obsessão para ele, nem penso que lhe interessem. A China era a obsessão de [seu ex-conselheiro] Steve Bannon, e não de Trump. Todos esses aspectos o interessam tão pouco, estão tão longe de sua realidade limitada ... Na verdade, não lhe interessam nada.

HP - Trump é uma pessoa mentalmente capacitada para ser presidente dos Estados Unidos?

[Silêncio] Eu não posso responder a essa pergunta, eu não estou capacitado. Mas eu posso descrever o que eu vi. E quando você fala com ele, você percebe que suas conversas não têm nexo, é realmente alarmante.

HP - Mario Vargas Llosa escreveu que ler seu livro é um "desperdício de tempo".

Uma perda de tempo?

HP - Sim, está cheio de fofoca e estupidez.

Eu nunca consegui terminar um livro de Vargas Llosa. Eu tentei, lutei, mas nunca consegui.



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