domingo, 18 de fevereiro de 2018

Intervenção militar no Rio. Exército é treinado para combater inimigos. E nós não somos os inimigos. Ou somos?

Passo a passo da chacina

Tempo estimado de leitura: dois minutos

Em julho de 2008, o morro da Providência, no centro do Rio, estava ocupado por forças do Exército. No dia 14, um tenente, um sargento e nove soldados prenderam três jovens negros, que os teriam desacatado, segundo o tenente. Os jovens foram levados ao capitão, que mandou que fossem liberados.

O tenente não se conformou com a decisão do capitão e levou os três jovens (24, 19 e 17 anos) ao Morro da Mineira e os entregou a traficantes de lá (rivais dos da Providência), para darem "um susto neles", segundo o tenente em depoimento à Justiça. Os três jovens foram barbaramente torturados (o tenente confessou que chegou a assistir ao início das agressões), assassinados e jogados num lixão [veja na imagem acima o passo a passo da chacina].

Na época, comentei o assunto aqui no blog:

Não sei sua opinião, mas essa história do frio assassinato de três jovens do morro da Providência, no Rio, com a participação de soldados e oficiais do Exército está muito mal contada.

Por que eles levariam os jovens para serem assassinados por facção rival do crime organizado, em outra favela, em vez de eliminar os jovens simplesmente, como parece ter sido a intenção?

Uma resposta a essa questão é capaz de horrorizar aqueles que defendem que o Exército deve participar ativamente do confronto com os narcotraficantes: o tenente, os três sargentos e os sete soldados estavam a serviço dos traficantes do morro da Mineira, e foram até lá entregar-lhes a encomenda.

Outra resposta deixa mal o Exército: na verdade, os militares assassinaram os jovens e a história dos traficantes foi criada apenas para livrar a farda do crime.

A terceira história – a contada por eles – pode até ser a verdadeira, mas é completamente inverossímil. Como um tenente, insatisfeito com a ordem do capitão para que libertasse os jovens, comenta com seus subordinados que quer castigá-los, um dos soldados tem a idéia de entregá-los aos traficantes da favela rival, isso é feito, e depois os corpos são encontrados longe dali, num lixão na Baixada Fluminense?

Qualquer que seja a alternativa, ela só vem reforçar a tese de que não é papel do Exército combater o tráfico de drogas.


Imagem da primeira página de O Globo informando ocupação do Borel pelo Exército


Em 1994, houve outra ocupação, esta no Morro do Borel, na Tijuca, Zona Norte do Rio. O Globo, como sempre, comemorou a ocupação e informou, erradamente, que o cruzeiro que se vê no alto do morro fora colocado lá pelos traficantes.

O jornalista Marcelo Auler conta o que viu um dia após a tomada e derrubada do tal cruzeiro por tropas do Exército: tortura, violência e muito sangue. E a informação, dada pelo padre da região, de que o cruzeiro não era obra dos traficantes mas dos fiéis da igreja e da comunidade.

O Exército, como também fez em 2008, reconheceu seus erros, prometeu punir torturas e reconstruir o cruzeiro derrubado. [Leia reportagem completa deste caso de 1994 no Borel no Blog do Marcelo Auler]

Quanto ao caso de 2008, o  que aconteceu com o tenente, segundo o Comando Militar do leste ao Conexão Jornalismo:

Declaração do Comando Militar do Leste



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