quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Sobre as Novas Bases Curriculares do Ensino Médio que o governo golpista quer implantar. Por Nilson Lage

Temer assustado

Do professor Nilson Lage, em seu perfil no Facebook:

As Bases Curriculares do Atraso


Não comentaria, no limiar de novo salto tecnológico e diante dos problemas suscitados pelo domínio dos homens sobre a natureza e o próprio corpo, quão anacrônica é a expressão mínima a que foram reduzidas a Biologia, a Física, Química e a Informática nas Bases Curriculares do Ensino Médio que o governo tenta implantar a toque de caixa.
 

Não registraria que o documento integra uma política de desprezo pela experiência magnífica dos cieps de Darcy Ribeiro; da escola nova de Anísio Teixeira, calcada no pragmatismo lúcido de John Dewey; ou dos ensinamentos de Paulo Freire que, criteriosamente aplicados, nos possibilitariam ser uma ‘nação de iguais’ em duas ou três gerações.
 

Também não insistiria na denúncia da interpretação absurda de ‘protagonismo juvenil’ que se traduz na diretriz de transferir aos adolescentes – na prática, a interesses ideológicos da instituição de ensino – a escolha de boa parte do conteúdo das disciplinas; de se perpetuar a divisão criminosa da sociedade em categorias estanques de gente das “humanas” e das “exatas”; da reveladora exclusão dos estudos de Sociologia.
 

Lembro, apenas, que o ensino médio não pode mais ser visto como formação terminal; é o degrau que precede a universidade, onde se formam – e cada vez mais se formarão – os quadros profissionais. Currículo capenga transformará esse degrau em muralha, impedindo o acesso das pessoas comuns, que frequentam o ensino público, às boas escolas de nível superior. Os ricos, é claro, pagarão os tubos para contornar essa barreira: estudarão ciências, discutirão Marx e Darwin, aprenderão a programar computadores, conhecerão a grande arte.
 

O raciocínio que levou a visão tão estreita é primário, quase infantil: como as avaliações internacionais do ensino básico baseiam-se no desempenho em linguagens e matemática, ampliaram-se os conteúdos de línguas e matemática – isto é, sintaxe, morfologia e lógica aplicada a valores abstratos. Estética e jogos do pensamento em altas doses.
 

O erro nisso aí é que línguas e matemática são estruturas que devem ser preenchidas pelos conceitos de entes e funções para que possam significar; esses conceitos, através dos quais de enquadram aspectos da realidade, são exatamente o objeto das ciências humanas e na natureza. O domínio das formas linguísticas e da álgebra elementar é perfeitamente compatível com o analfabetismo funcional
 

Diante do espanto causado pelo projeto, o governo promete remendá-lo. Isso é impossível. O erro está na concepção. A mediocridade empolada e as omissões do texto apenas agravam o desvio insanável: remetem à saga da palavra “pedante”, oriunda do grego pedos = criança. Ela se aplicava aos mestres-escola e, com o tempo, ganhou o sentido pejorativo atual, com que nos chegou via francês.
 

Quanto à supressão da Filosofia, o melhor que posso fazer é lembrar do ponto que sorteei, em 1952, em exame oral, final, da terceira série do Curso Científico, no Colégio Militar do Rio de Janeiro: “O pessimismo social no Século XIX – Schopenhauer, Spencer e Nietzsche”. Tínhamos estudado e lido trechos, não me esqueço, de “Assim falou Zaratustra”.
 

Como regredimos tanto?


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