sexta-feira, 6 de junho de 2008

Folha finge criticar Uribe para atacar Chávez


Uribe imita Chávez é o título de um editorial da Folha hoje. Curioso, até para criticar o Uribe eles têm que colocar o Chávez no meio. O tema é o movimento pela segunda reeleição de Uribe, que está sendo trabalhada na Assembléia colombiana por partidários de don Varito, como Uribe era chamado pelo megatraficante Pablo Escobar (leia aqui Pablo Escobar sobre Uribe: 'Se não fosse por esse rapaz bendito, ainda estaria trazendo pasta de cocaína em porta-malas de carros').

O editorial critica a possibilidade desse terceiro mandato, mas – mas é isso, tem sempre um mas, um entretanto, um porém... Leia:

Deve-se reconhecer que o colombiano, ao contrário do venezuelano, tem pelo menos uma realização que transcende ao populismo a apresentar: sua política de segurança é um sucesso. Não apenas logrou reduzir substancialmente a violência que assolava os grandes centros urbanos como ainda obteve um impressionante avanço militar sobre as Farc, a guerrilha que há mais de 40 anos inferniza a vida da população.

Quer dizer: se Uribe tem pelo menos uma realização significa que Chávez não tem nenhuma. Deveriam ler Hugo Chávez: O que nunca lhe informaram sobre ele.

Mais adiante, o jornalão paulista (que vai sentir o tamanho do pepino, se for confirmada a compra do Estadão pelas Organizações Globo) repete uma informação que correu o país no mês passado, e que é absolutamente furada:

Não é por outro motivo que Uribe é o presidente mais popular das Américas, com 84% de aprovação.

Essa pesquisa foi publicada inicialmente no México, e correu o mundo, via agências de notícias. A mídia corporativa deitou e rolou, mas não fez o dever de casa, que seria ir até o site de quem divulgou a pesquisa.

Se fossem, iriam descobrir que o Consulta Mitofsky misturou alhos com bugalhos, números de 2008 com outros de 2007 etc. Por exemplo, os tais 84% de Uribe são de uma pesquisa de março de 2007 - há mais de um ano, portanto. (Quem tiver curiosidade de fazer o que a Folha não fez, é só baixar este arquivo .pdf, onde está a tal pesquisa.)

Agora, o mais divertido a Folha guardou para o final. Leia este trecho:

Cerca de 60 congressistas de partidos situacionistas são investigados por envolvimento com os "paras", as milícias de extrema direita cujas atividades ilícitas incluem chacinas e narcotráfico. Três dezenas de políticos estão presos, incluindo um primo e colaborador de Uribe. Para piorar, o presidente é agora acusado de ter comprado votos para aprovar a emenda constitucional que lhe possibilitou o segundo mandato.

Sabe como a Folha encabeça esse emaranhado de denúncias, que mostram que está subindo à tona o verdadeiro caráter de Uribe e seu governo? Com o seguinte eufemismo:

No front político, entretanto, sua gestão é vulnerável.

Vulnerável ficou o meu Botafogo com esse incompetente Geninho. Três dezenas de partidários presos, 60 investigados, compra de reeleição: isso é só estar "vulnerável"? A posição de Uribe é insustentável. Seu governo vaza água e até o El Tiempo (principal jornal do país, e da família do vice de don Varito) começa, aqui e ali, a soltar informações contra o chefe. Aliás, como a Folha está fazendo em São Paulo, com o editorial de hoje que critica Serra e Alckmin.

É que em certas horas fica insustentável não dizer a verdade.

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9 comentários:

  1. ATENÇÃO, COMENTARISTA:

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    Antônio Mello

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  2. Que o PIG tem uma quedinha por ditadores, desde que sejam os "seus" ditadores, qualquer pessoa minimamente crítica já sabe. Mas queria perguntar outra coisa: a venda do Estadão para a Globo é boato ou "a coisa está rolando", como diz a molecada? Porque se "rolar", a Folha vai se enrolar de vez!
    Um abraço!

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  3. José Eduardo,
    parece que "a coisa está rolando" mesmo.
    A concentração na mídia é uma tendência mundial, e o Estadão está parado no tempo. Tão parado que chegou a bancar uma campanha criticando a blogosfera, lembra?

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  4. DESCONFORMADO6.6.08

    Em que “Frias” se mete a Folha de São Paulo quando divulga notícias com tamanha “imparcialidade”?
    A ponte esteiada, que atravessa o rio Pinheiros, já foi motivo de uma “Falha” (editorial) de São Paulo quando proposta pela ex-prefeita Marta Suplicy. Agora, inaugurada pelo Demo-Tucanato, homenageando um dos patronos da dinastia midiática paulista é louvada, abençoada e, de quebra, ainda serve de cenário para o SP-TV por fazer ligação com a avenida do golpista, digo, jornalista Roberto Marinho. São sempre dois pesos e duas medidas quando se trata de vender os peixes podres das opiniões tendenciosas e das informações fragmentadas.
    Talvez, por mais uma simples “falha da folha”, não foi citado no periódico o fato de Juan David Naranjo, irmão de Oscar Naranjo, diretor de polícia de Uribe, estar desde 2006 preso na Alemanha, quando tentou vender 35 quilos de cocaína a policiais disfarçados, (http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=9&i=344 “Uribe e Bush, enfim sós” Carta Capital - 10/03/2008) Este enfoque, traçando um paralelo entre Chavez e Uribe, talvez seja, atualmente, a contribuição possível do jornal às democracias latino americanas. A vertiginosa queda que vem sofrendo em sua tiragem diária e em sua credibilidade (não necessariamente nesta ordem) provavelmente a impeça de enviar os veículos de sua frota para apoiar diretamente golpes militares e torturadores paramilitares em países tão distantes (como comentam as vítimas da dita-enrijecida nos anos de chumbo da Terra Brasilis) Com diz o slogan: “De rabo preso com o feitor, digo, leitor”. Quem não te conhece que te compre, já dizia o velho deitado.

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  5. Se lembro! A propósito, caro Mello, nestes tempos de crise insolúvel do capitalismo a concentração midiática vem de encontro a uma outra tendência em curso: o das fusões de grandes empresas, que embora muito comemoradas pelo mercado não esconde o fato de que o capitalismo concorrencial, um dos dogmas do livre mercado, está com os dias contados. Trocando em miúdos, o sistema está podre e moribundo. Essa fusões estão apenas servindo para adiar o invitável fim.
    Um abraço!

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  6. Oi Mello, ontem não entrou meu comentário pra este post aqui, além de elogiar sua leitura eu pedia mais dados sobre essa concentração midiática que se anuncia e não vi anunciado em nenhum lugar.
    abraços

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  7. Fro,
    não sei o que houve com seu comentário. Os que recebi ontem, publiquei, como este de agora.
    Quanto à aquisição do Estadão pelo Infoglobo, das Organizações Globo, a notícia saiu inicialmente num blog de jornalistas, Coleguinhas Uni-vos, e depois no Rovai, com quem eu havia comentado o assunto. Correu a internet, e ontem o Portal Imprensa publicou declarações do Estadão negando a transação. Mas isso é a praxe.
    O que nos resta é esperar para ver.
    Mas que certamente há interesse das OG em ampliar seu espaço em SP, não há como negar. E a aquisição da marca Estadão seria uma grande jogada para eles. Péssima para a Folha (que vai sentir o que o JB aqui do Rio sentiu) e, mais ainda, para todos nós, que sofreremos ainda mais com a concentração cada vez maior da mídia.

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  8. É bug do blogger, sempre espero pra ver se foi enviado, mas acontece e ontem a rede estava estranha.

    Mello é triste pela concentração em si e porque por incrível que pareça nesses últimos meses em questões importantes como a cobertura sobre os conflitos na TI Raposa Serra do Sol. O Estadão tem uma velha guarda como o Roldão e outros que tem postura, amor ao jornalismo.

    É um jornal conservador e nunca disse o contrário, já a Folha tenta posar diferente e é pior, exatamente porque procura esconder sua tucanês deslavada sem conseguir. E parece que seus articulistas perdem de vez a compostura, estão mais reacionários e preconceituosos como nunca.

    A gente está urgentemente precisando de mais imprensa, conversava com um amigo professor, ele indignado da APEOESP não ter um jornal, ele tem razão, é inacreditável que a corporação não tenha um jornal eficiente, ela é gigantesca, representa a maior parcela da categoria do professorado do país. Às vezes eu tenho uma sensação que a gente ficou preguiçoso de 1990 para cá e de 2003 então nem se fale....
    Abraços

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  9. Maria Fro,
    daí a importância do Fórum Mídia Livre, que vai acontecer no final de semana que vem aqui no Rio.
    Todos os que têm essa preocupação com os rumos da mídia hoje deveriam comparecer.

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