domingo, 22 de março de 2009

Palestina grávida no centro da mira. Legenda: 1 shot 2 kill


Camiseta de soldado israelense: 1 shot 2 kill

Esta é uma das camisetas usadas por jovens soldados da IDF (Israel Defense Forces). Há outros modelitos, que você pode conferir na reportagem Dead Palestinian babies and bombed mosques - IDF fashion 2009.

A denúncia não é de nenhuma publicação antissionista, antissemita ou anti-Israel. Está no Haaretz, principal jornal de Israel.

Não é de causar espanto, portanto, que ainda outro dia o mesmo Haaretz (aqui, via BBC) tenha informado que soldados israelenses confirmaram que assassinaram civis em Gaza, obedecendo a ordens superiores:

"Entrávamos em um prédio e recebíamos ordens de subir de andar em andar e atirar em qualquer pessoa que víssemos... chamo isso de assassinato".

"Superiores nos disseram que podemos atirar nas pessoas que não fugiram, pois são terroristas, mas eles não tinham para onde fugir... isso me amedrontou, tentei fazer alguma coisa, da minha posição inferior, para mudar a situação".

Eles assassinam e ainda se divertem.

Como contraponto, publico novamente aqui o vídeo a seguir, para que você sinta a revolta, o sofrimento e o orgulho de um povo na voz de uma menina palestina. Não deixe de assistir.



Leia também:

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5 comentários:

  1. Eita, Mello. Toda vez que eu vejo esse vídeo eu choro que nem um condenado. Tô chorando agora, inclusive.
    O que estão fazendo com os palestinos é uma judiação, literalmente.

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  2. Remonat23.3.09

    AGORA COM A FALENCIA DO SISTEMA BANCARIO AMERICANO QUE É COMANDADO POR ESPECULADORES JUDEUS, É UMA BOA HORA PARA OBAMA INTERVIR NESSA CARNICINA.

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  3. Anônimo23.3.09

    De lascar,é o mundo inteiro,a humanidade inteira,ficar esperando um unico homem,no caso o presidente dos EUA,resolver essa situacao absurda!Isso é ser conivente e/ou omisso!
    E essa ONU,que faz apenas figura decorativa,pra acalmar os animos de quem se revolta!Uma inutilidade,pois,so fazem o que interessa aos EUA e a Israel!

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  4. Anônimo16.4.09

    Experiência típica de uma palestina
    Sou palestina. De Gaza. Eu estava nos Estados Unidos. Tenho um passaporte emitido pela Autoridade Palestina. Ele substitui o passaporte jordaniano temporário (para dois anos) que era emitido para os que residem em Gaza e que substituía os documentos de viagem egípcios que tínhamos antes disso. Qualquer coisa serve para que não tenhamos documentos para não ficar provado que a Palestina existe e que existem palestinos lá. É um passaporte que não permite passagem. É um passaporte que negou a mim a entrada em minha própria casa. Este é o objetivo: marcar-me, dar-me uma etiqueta, de modo que eu possa ser identificada com facilidade e descartada sem perguntas: bom para quem dá as ordens. É um sistema para identificação coletiva dos que eles não querem que tenham identidade.
    Primeiro fomos para a embaixada do Egito. No ano passado, meus pais que moram em Gaza vieram nos visitar quando Rafah foi fechada. Eles tentaram voar para o Egito para esperar a fronteira abrir, mas não conseguiram embarcar em Washington. “Palestino não pode viajar para o Egito sem visto, são estas as novas regras. Mas só podemos emitir vistos quando Rafah for aberta de novo pelos israelenses”. Isto nos foi explicado pelo pessoal da viação aérea. Meus pais ficaram sem saída e o que era pior, o visto de entrada deles, nos EUA estava vencendo. Seis meses. Finalmente eles obtiveram um visto de turista egípcio porque eram idosos, esperaram no Egito durante um mês até a fronteira com Rafah abrir.
    Eu não queria repetir o sofrimento deles, com duas crianças, então telefonei antes para a embaixada que me disse que tinham mudado as regras. Agora, só homens palestinos não podiam entrar no Egito, mulheres podiam e receberiam seu visto na entrada do Egito. Recebi uma carta assinada e datada de 6 de abril de 2009 escrita pelo cônsul, para carregar comigo se tivesse problemas. A carta dizia:
    "O consulado da embaixada do Egito confirma que mulheres da Faixa de Gaza e que tem passaportes da Autoridade Palestina podem pegar seus vistos para entrar o Egito nos portos de entrada do Egito e não nos consulados norte americanos, ao viajarem para a Faixa de Gaza."
    Dois longos vôos e uma viagem de sete horas depois, chegamos ao Egito. Eu conhecia a rotina. Ao chegar, corri ao banco para comprar os selos de 15 dólares para o passaporte norte americano de meus filhos Yousuf e Noor e trocar alguns dólares por dinheiro egípcio. Apresentamos os passaportes e as coisas pareciam estar funcionando. Aí o agente explicou que ele precisava informar algo a seu superior. "Seu passaporte é palestino. A entrada de Rafah está fechada ...". "Garanto que não demora mais que cinco minutos," ele me garantiu. Mas eu sabia que seria uma longa espera. De vez em quando mudavam as caras dos oficiais. Andei por três ou quatro salas para responder perguntas e fazer perguntas. Eu nunca obtinha um nome para ser encaminhada e as respostas sempre eram do tipo codificadas.
    A primeira pessoa explicou que eu não poderia entrar no Egito porque os palestinos sem visto de residência permanente no exterior não entram no Egito, além disto Rafah estava fechada. Me disseram que eu seria deportada para a Inglaterra primeiro. “Mas eu nem tenho visto para a Inglaterra”. Me mandaram concordar em entrar no primeiro vôo que houvesse para a Inglaterra. Eu me recusei. Não vim até aqui para voltar. Fui levada até o terminal de transito prorrogado. No começo estava vazio, exceto por um asiático que dormiu o tempo todo. Durante o dia encheu-se de passageiros localmente deportados, de aldeias e cidadezinhas do Egito e então mudamos nossas coisas para a parte de cima.
    Meu filho, de vez em quando, frustrado dizia à eles “quando é que vou ver meu vô e minha vó” ou “porque eles encheram o chão de baratas”. Assim que chegamos, ele perguntou “se estes caras aqui são os israelenses” porque suas únicas experiências na vida com confinamento, atraso e recusas tinham sido nas mãos de soldados e agentes do governo israelenses. Não, eu disse. “Mas então porque os israelenses podem ir no Egito tomar sol na praia e nós não podemos nem ir para nossa casa?”. Sem resposta.
    Poucas vezes eu tive acesso a alguém com alguma autoridade. Parecia que me chamavam sempre que trocavam os turnos, então eles se posicionavam para seus interrogatórios três vezes ao dia cheios de intimidação, gritos e choros. Os agentes entravam e saiam nas trocas de turno, mas nossa situação era sempre a mesma, nosso problema ou nosso caso era sempre o mesmo. Continuamos sentados, com nossos papéis nas mãos, esperando, esperando, esperando.
    Sempre esperando. Porque é isto que o palestino faz: espera. Por uma resposta, para perguntar alguma coisa, para um pedido de casamento, para resolver um divórcio, para abrir uma fronteira, para que receba permissão para algo, para que uma guerra acabe, para que uma invasão comece, para que uma criança nasça, para ser martirizado, para aposentar-se, para exilar-se em um local melhor, para voltar para o único país que temos, para que nossos prisioneiros voltem para casa, para que nossas casas deixem de ser nossas prisões, para que nossas crianças possam ser livres, para sermos livres em uma época em que não teremos que esperar mais.

    De vez em quando alguém, ou alguém no telefone me chamava uma voz sombria perguntava se eu não tinha mudado de idéia. Eu insistia que queria ir para casa. Isso não era complicado para se entender. Aí me diziam: “Mas Gaza é um caso especial”. Especial ou seja sem direito a direitos.
    Aí começaram a surgir caras estranhas que agiam como se eu fosse alguém que eles tinham conhecido antigamente. Como se eu fosse alguém em uma penitenciária, com amnésia. E todos perguntavam a mesma coisa: “Você vai tomar logo o avião, não é?”
    Primeiro veio um senhor do gabinete de representantes de palestinos que alguém mandou me ver. “Será tudo resolvido dentro de uma hora”, ele prometeu, quando já se havia passado um dia. Depois começou a falar sobre seu filho que trabalhava para a Motorola, na Flórida.
    "Ah, ele ajuda os israelenses a fabricar aviões que atiram bombas?"
    "Isso mesmo!" ele concordou.
    Passou-se mais uma hora e subitamente o assunto “não podia ser resolvido” e eu era uma “jornalista que estava arrumando problemas”.
    Meus amigos e minha família que mora no Egito, nos Estados Unidos e em Gaza estavam o tempo todo ajudando, chamando quem conheciam, pedindo favores a quem podiam, fazendo o que fosse para ajudar a conseguir alguma coisa que me fizesse passar. Mas a resposta era sempre a mesma: os serviços de segurança e inteligência diziam não e eles eram as autoridades, ninguém mais. .
    Mais tarde outro representante de palestinos veio me ver.
    "Então você não vai neste segundo vôo?"
    "Porque é que todos falam sempre perguntando?"
    "Responda a pergunta."
    "Não, eu vim aqui para ir a Gaza e não para voltar aos EUA."
    "Ah está bem, é isto que eu precisava saber, temos aqui um comboio de palestinos feridos com permissão de entrar pela fronteira, que tem algum espaço, estamos tentando fazer com que você entre com eles, espere só 15 minutos e tudo fica resolvido, precisamos só permissão, já vai resolver”, ele me garantiu.
    Yousuf enquanto isto matou outra barata.
    Fomos então levados a outro corredor, com outra sala e outras caras. O homem sentado a mesa explicou que ele estava perdendo o sono com meu caso e todos estavam envolvidos com isto, e ele também tinha um filho da idade do meu. Me ofereceu uma maçã e uma garrafa de água e me disse para descansar, um comando que eu ouviria muitas vezes ao longo de 36 horas.
    "Não quero comer, não quero descansar, não quero que o senhor seja bonzinho, quero ir para casa! Para meu país! ‘Tá difícil de entender? “ Comecei a gritar, perdendo a calma das últimas 20 horas.
    "Por favor não grite, acalme-se, todos vão pensar que estou tratando você mal, por favor, além do mais é uma falta de educação não aceitar minha maçã”.
    "O quê? Falta de educação é não me deixar entrar no meu país! E porque tenho que ficar calma? Tudo isto é um absurdo!”
    "Por favor minha senhora, não tenha um ataque na frente de suas crianças, por favor. Sabe, eu tenho um filho da idade do seu e estou muito triste com isto tudo, vendo esta criança nestas condições, por favor, tome o avião."
    "Então, não me veja nestas condições! Existe uma solução simples, deixe me ir para casa. Estou pedindo demais?”
    "Regras são regras, você precisa de um visto para ir para lá como para qualquer outro país, você pode por acaso ir a Jordânia sem visto”?
    "Não venha com esta conversa de regras. Eu tenho a permissão de sua embaixada, seu cônsul geral, para passar pelo Egito e chegar até Gaza. Além disto, de que outro modo se chega a Gaza”? gritei, sacudindo o documento na frente dele.
    "Então processe o cônsul geral. A segurança de estado é mais importante do que o ministro de negócios exteriores, ele deve estar com as leis desatualizadas.”
    "A carta está datada de 6 de abril, dois dias atrás, como pode estar desatualizada? Olha, se eu pudesse cair de pára-quedas em Gaza eu iria. Com todo o respeito devido a seu país, não estou aqui para fazer turismo no Egito. Você tem um pára-quedas? Se eu pudesse nadar até lá também nadaria, mas da última vez que eu vi os israelenses estavam derrubando os botes. Você tem outra sugestão?”
    "O que é que a senhora quer? Viver no aeroporto? É isso? Podemos fazer uma barraca para a senhora? E ninguém vai nem perguntar quem é a senhora. Em todo caso, como a senhora não tem residência permanente no exterior, a política de nosso governo diz que não podemos deixar entrar nenhum palestino que não tem residência no exterior!”

    "Eu tenho um visto dos Estados Unidos – o carimbo do meu passaporte expirou mas o documento de prorrogação tem validade até o final de junho de 2009. Além disto, que espécie de lei sem lógica é esta? Você não me deixa voltar para minha terra a não ser que eu tenha residência permanente no exterior?????”
    "Não lei inglês, por favor traduza."
    "O senhor está vendo aqui que diz que tem a validade até 30 de junho”.
    "Ótimo então não vamos deportar a senhora para a Inglaterra, e sim para os EUA," disse ele pegando o telefone e dando uma ordem para que o comboio de palestinos feridos saísse sem mim, minha única esperança de voltar a casa dissipando-se perante meus olhos nas mãos de um agente quase analfabeto e manipulador.
    "Você acabou de dizer que se eu tiver residência permanente no exterior posso ir para casa, agora você diz que não posso, qual é o caso?”
    "Sinto muito que você esteja recusando-se a entrar no avião; levem ela daqui."

    Fomos levados para a área de espera, de volta para a sala das baratas. Aqui estava eu quase sendo deportada de minha casa, com todos os documentos possíveis, todos os papéis corretos assinados por todas as autoridades de consulados e universidades.
    Pouco depois um novo guarda veio até nós e pediu-nos que o seguisse “para uma sala mais isolada”. “Será melhor para vocês, mais privado. Todos os vôos africanos estão chegando com suas doenças, não é bom ficar por aqui. Vai ficar cheio!”
    Antes disto pediram que eu trouxesse toda a bagagem e fomos para outro corredor. Sentamo-nos em outro lugarzinho fedorento onde havia 17 homens de nacionalidades diferentes e uma mulher indonésia dormindo no chão roncando, esperando.

    Um homem extremamente grosseiro e totalmente analfabeto, conforme ele mesmo disse pegou todos os papéis, cuspindo palavrões além de gritar com qualquer pessoa que sussurrasse. A sala era chamada de cela, parecendo mais uma sala de detenção.

    Dividiram a sala em regiões, os cinco asiáticos que estavam lá por documentos ilegais, eram chamados de paquistaneses, sempre que queriam falar com algum deles. A mulher que dormia e roncava era chamada de indonésia e os impecáveis executivos da Guiné, super bem vestidos eram chamados de Quênia, embora insistissem no contrário. Havia um grupo de camponeses egípcios com falsos documentos e passaportes, um homem cuja identidade dizia que nascera em 1990 e etc.

    Nestas alturas eu estava sem dormir havia 27 horas ou 40 se contar a viagem de avião até ali. Minha paciência e minha energia estavam acabando, minhas crianças estavam imundas, cansadas e confusas.

    Aproveitamos para falar quando os carcereiros saíram. “Então, o que você fez?” perguntou o executivo da Guiné.

    "Nasci na Palestina," repliquei. "Todos aqui estão sendo deportados para casa por qualquer motivo, eu sou a única que está sendo deportada para longe de casa, a única que NÃO pode entrar no país de origem."

    O agente voltou e pediu me que o acompanhasse. Peguei as crianças sem saber o que aconteceria.

    Dois homens com olhar gelado estavam na outra sala e perguntaram novamente se eu estava tomando o avião para os EUA. Noor começou a gritar e a bater em quem se aproximasse dela. “Ela é teimosa como a mãe” disse um deles.

    Logo fomos levados de volta eu sentindo que não poderia fazer mais nada. Esperamos mais horas e horas até que as crianças exaustas dormiram. Dei banho nelas na pia do banheiro imundo, com água gelada e recostei os dois nas cadeiras de aço, sob o som das milhares de moscas.

    Finalmente chegou a manhã do outro dia e fomos escoltados por dois guardas, nosso vôo re-programado e fomos colocados em um avião para Washington.

    Minha filha vomitou o vôo inteiro para Londres e eu estava meio que em delírio pedindo desculpas ao inglês ao meu lado, que tentava me ajudar.

    Nós três ficamos com infecção de ouvido e garganta nos dias que se seguiram.
    Finalmente chegamos ao aeroporto de Dulles. Caminhei para a cabine de identificação.
    O que eu iria dizer? Como explicar isto? O homem olhou meu visto vencido e meu carimbo de saída do país.

    "Quanto tempo a senhora ficou fora?"

    "Trinta e seis horas," respondi.

    "Estou vendo. A senhora pode explicar?"

    "Claro. O Egito me proibiu de voltar a Gaza."

    "Não entendo – eles não deixaram a senhora voltar para sua própria casa?"

    "Também não entendo."

    Com isto, recebi outro carimbo e entrei nos EUA.

    Agora que estamos aqui, aquecidos, vestidos, tomados banho, descansados e recuperados de qualquer vírus que tenhamos pego nos intestinos do aeroporto de Cairo, pergunto: o que mais eu poderia ter feito ?

    "A experiência mais característica de um palestino ," escreveu o historiador Rashid Khalidi , "tem lugar em uma fronteira, em aeroportos, em guaritas de segurança, ou seja, em qualquer lugar onde as identidades são verificadas ."

    Nestes lugares, acrescenta Robyn Creswell, "conexão" acaba sendo outra palavra para separação ou quarentena: as escalas em aeroportos nunca terminam. Mas a crueldade na situação dos palestinos é que estes purgatórios são a rotina de sua existência, de seu cotidiano. "

    Laila El-Haddad é jornalista freelancer, fotógrafa e blogueira (http://a-mother-from-gaza.blogspot.com/).

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  5. Anônimo16.4.09

    Um ano dos tiros em Brian Avery

    Ontem fez um ano que um soldado israelense atirou no rosto do meu amigo Brian Avery. Há um ano atrás, eu parei de correr, olhei para trás e vi Brian caído com o rosto no chão, em uma rua do campo de refugiados. Há um ano atrás, minha camiseta branca ficou completamente tingida de vermelho.
    Dia 5 de abril no final da tarde. Era o terceiro dia de toque de recolher em Jenin, na invasão da Cisjordânia e tinha sido um dia muito cheio. Os soldados israelenses, em tanques e jipes tinham patrulhado as ruas e as crianças palestinas estavam na verdade arriscando a vida ao ficarem nas ruas, alguns atirando pedras nos invasores.
    Éramos quatro ativistas do Movimento Internacional de Solidariedade, da Dinamarca, Inglaterra e Suécia, que servíamos como “escudos humanos”, para um grande grupo de crianças palestinas na maior parte da tarde. Ficando perto dos meninos que atiravam pedras, nós acreditávamos que poderíamos impedir que as metralhadoras israelenses matassem crianças que tinham coragem de atirar pedras contra tanques de guerra que na verdade eram a prova ate de mísseis. Os soldados nunca matavam crianças quando estávamos lá, faziam isto frequentemente quando não estávamos.
    Eu estava já cansado. Mais ou menos 30 palestinos estavam reunidos na rua principal de seu campo de refugiados, onde os tanques dos invasores iram de baixo para cima. Mas uma hora antes, os tanques tinham saído do centro da cidade e as coisas estavam mais calmas. Tínhamos saído de perto do grupo e estávamos voltando para nosso apartamento quando ouvimos dois ou três tiros a distância. Eu chamei um dos outros dois ativistas em Jenin, Tobias, da Suécia pelo celular. Ele me disse que ele e Brian estavam indo para lá e iriam nos encontrar no andar de baixo do apartamento.
    Ele e Brian tinham passado a maior parte do dia dormindo. Eles tinham sido co-pilotos de ambulâncias palestinas a noite toda. Por experiência sabemos que tanto os pacientes quanto o pessoal médico sentem-se melhor com um co-pilotos. Assim raramente a ambulância é detida nas guaritas de soldados israelenses, o doente e o motorista raramente são assediados e nunca são surrados.
    Enquanto nós quatro íamos na direção do cruzamento eu vi Brian e Tobias esperando. As ruas estavam quase abandonadas, não havia carros, nenhum tanque e pouquíssimas pessoas. Quando estávamos a seiscentos metros deles, ouvi o ruído de tanques. Vi Brian e Tobias virarem-se para a rua e levantar as mãos para o ar.
    Quando nos encontramos, vimos os dois tanques. Éramos seis internacionais parados, com as mãos para o alto, em fila, claramente visíveis, de modo que os soldados veriam que não éramos palestinos.
    O primeiro tanque abriu fogo quando estava a duzentos metros. Vi fagulhas na rua, quando as balas atingiam o pavimento. Eu quis ficar parado, mas depois de dois ou três segundos de tiroteio incessante eu entendi que isto não era tiro de alerta. Pela primeira vez nos meus dois meses de Jesus, fiquei realmente apavorado e comecei a correr. Depois de correr uns seis passos parei e me voltei. Senti que algo tinha acontecido. Vi Brian caído com as mãos no rosto. Estava completamente imóvel.
    Corri para ele e ajoelhei a seu lado. Pensei que tinha sido atingido por estilhaços das balas, eu vi centelhas na nossa frente. E vi que seu rosto era um mar de sangue. Pedi a ele para olhar o ferimento, ele levantou a parte superior do corpo, virou o rosto para mim e removeu as mãos. Parecia que o rosto dele tinha explodido. O lado esquerdo do rosto estava preso a orelha.
    “Ele está mal, muito mal,” eu gritei para meus amigos que estavam reunindo-se a nossa volta. Olhei e vi o tanque que havia metralhado passar devagar, a uns vinte metros de distância. “Chame uma ambulância e depressa”, gritei. Eu estava começando a ficar em pânico. Olhei o rosto destruído de Brian e o sangue todo e não conseguia pensar no que fazer. Eu queria usar as mãos para segurar o rosto dele mas não conseguia tocar nele, estava desesperado pensando no que fazer mas não conseguia raciocinar. Olhei de novo e vi que os tanques tinham passado como se NADA tivesse acontecido. “Não sei o que fazer” comecei a gritar. Ewa, felizmente sabia o que fazer: “Tire sua camisa e pressione contra a face dele”, ela disse. Fiz o que ela mando, era uma camiseta branca mas quando a ambulância apareceu, menos de um minuto depois, estava totalmente vermelha. Duas horas depois eu vi que minhas mãos estavam totalmente vermelhas e que eu estava também com sangue no rosto.
    Brian acordou dois dias depois em uma cama de um hospital israelense em Haifa. Todos ficaram impressionados com a recuperação rápida dele. Os cirurgiões levaram oito horas para fazer a primeira operação de emergência. Muitas mais ele teria que fazer. Logo começou a comunicar-se, claro que sem falar. Sua boca tinha sido esmagada e todo o rosto estava envolto em gaze. Os olhos ficaram tão inchados que ele não conseguiu abri-los na primeira semana.
    Mas ele ouvia e o que é mais, lembrava-se. Seu cérebro estava intacto. Imediatamente começou a escrever frases em um pedaço de papel. Ninguém acreditava nisto, dois dias antes quando o cirurgião nos tinha dito que o tiro foi direto e feito por uma arma de calibre gigante. A bala entrou no lado direito do rosto, logo abaixo dos olhos e saiu pelo lado esquerdo abaixo da orelha. Se o rosto dele estivesse ligeiramente inclinado, teria caído morto imediatamente.
    Uma das primeiras frases que ele escreveu foi: “Sinto-me hoje mais palestino do que jamais senti antes”.
    Cindo dias depois Brian Avery celebrou seu 25º. Aniversário. As ataduras foram retiradas e ele ficou de péssimo humor. Hoje está de volta a Carolina do Norte com sua família. Os soldados do exercito israelense jamais assumiram responsabilidade por terem metralhado Brian. Enviaram uma mensagem falsamente dizendo que ele estava no meio de fogo entre soldados israelenses e palestinos (que não tem armas) e que provavelmente a bala era palestina (que não existe). O que eu sei é que foram as metralhadoras israelenses que atiraram. O que eu sei é que ninguém nos avisou nada. O que eu sei é que nenhum israelense parou para nos ajudar.
    É assim que um palestino se sente, vivendo na Palestina?

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