sexta-feira, 23 de maio de 2008

Quem apóia Evo Morales na Bolívia?


[Imagem]Pichação em muro, Bolívia, Cochabamba, apoio a Evo Morales. Foto de Alberto Montero

Artigo de Alberto Montero, professor de Economia Aplicada na Universidade de Málaga, Espanha. Publicado originalmente no Rebelión. Tradução e adaptação são minhas.

¿Quién apoya a Evo Morales en Bolivia?

Uma pesquisa do Gallup sobre a Bolívia aponta duas coisas importantes em relação aos apoios com que Evo Morales conta entre a população boliviana.

Uma delas é mais do que evidente e a pesquisa só vem confirmar a percepção de qualquer um que siga a realidade da Bolívia pode ter: Evo Morales conta com o apoio majoritário – 64% - da população pobre e da classe trabalhadora. É o presidente dos pobres, dos despossuídos que esperam que promova uma mudança social, política e econômica que, de uma vez por todas, acabe com as situações de exclusão e pobreza em que vive a maioria da população desse país.

Evo Morales tem apoio de 40% das classes média e alta

Além disso, a pesquisa revela que, em seu projeto transformador, Morales não tem o apoio apenas desses que seriam seus apoiadores tradicionais e incondicionais. Evo também conta com o apoio de 40% das classes média e alta.

Isso significa que a imagem de uma Bolívia quebrada pelas políticas indigenistas ou populistas do atual governo é muito pouco verdadeira em suas linhas gerais. De fato, o último relatório do Latinobarômetro para o ano de 2007 mostra que 60% da população apóia a gestão do governo atual.

Há razões que permitem explicar o porquê da manutenção desse apoio popular que, no entanto, a oposição e os meios de comunicação tratam de desvalorizar ou, o que é pior, recusar-se a ver.

Bolívia, o país onde mais avançou o apoio à democracia por parte da população

A explicação para isso também nos dá o Latinobarômetro. Segundo o último relatório, a Bolívia é o país de América Latina onde mais avançou o apoio à democracia por parte da população, desde que governa Evo Morales: do 49% em 2005 ao 67% em 2007. E mais, a confiança em que o sistema democrático é o melhor sistema de governo aumentou 20 pontos nos últimos cinco anos e chega atualmente até o 81%. Mais ainda, a percepção da população de que Bolívia é um país cada dia mais democrático foi em ascensão desde a chegada ao poder de Morales.

Estímulo à participação política da população

Evidentemente, isto significa que a população boliviana percebe que sua capacidade de influência na política através de mecanismos institucionais de natureza democrática vem aumentando; que o poder está deixando progressivamente de perceber-se como um reduto controlado pelas elites tradicionais e passa a estender-se de forma horizontal entre o povo.

Isso só é possível quando institucionalmente se promove essa participação democrática e se estimula o envolvimento dos cidadãos na atividade política; quando se incita as classes populares para que assumam sua responsabilidade de participação democrática como leito inevitável para aumentar seu nível de participação no poder e, com isso, suas possibilidades de avançar na transformação social como está fazendo o governo de Evo Morales.

Redução da taxa de desemprego

Mas há mais elementos que contribuem para explicar o apoio popular e o reforço da confiança na democracia na Bolívia. E são razões que também tratam freqüentemente de ser tergiversadas: enquanto no ano 2004 68% da população tinham dificuldades para chegar ao fim de mês, em 2007 essa percentagem se reduziu a 47%, isto é, mais de 20 pontos. Evidentemente, tudo isso graças a que, por exemplo, entre os anos 2006 e 2007 se reduziu a taxa de desemprego de 24% a 15%.

Assim, o reforço da percepção democrática do país foi acompanhado de uma melhora tanto na situação objetiva como na sensação subjetiva sobre a evolução econômica. O avanço é paralelo: a confiança na democracia e a melhora nos níveis de rendimento foram aumentando durante esses dois anos de governo e isso sem dúvida - e apesar de todos os erros de governo e o que poderia ter sido feito e não se fez - redunda na manutenção do apoio a Evo Morales. Mas, se seguimos analisando os dados, nos encontramos com novos elementos que também convém destacar.

Cai a confiança na economia de mercado

A realidade cultural e política de Bolívia é tão complexa que os apoios a Morales não podem ser entendidos exclusivamente em termos ideológicos vinculados aos conceitos tradicionais de direita e esquerda.

De fato, quando se realizam as análises sob essa perspectiva, que é uma das predominantes em muitos meios de comunicação, propõe-se que Evo só encontraria sustento entre o eleitorado de esquerda e, em seguida, passa-se à desqualificação de seu projeto transformador acusando-o de seu suposto projeto socialista como se isso, por outra parte, fosse uma opção ilegítima.

Para rebater o simplismo de tal análise bastam dois elementos que não podem ser desviados. Em primeiro lugar, que, precisamente, é o povo boliviano quem desconfia cada vez mais e em maior medida da economia de mercado como sistema que permita promover o desenvolvimento econômico: a percentagem de população que crê que esse é o caminho se reduziu do 64% em 2005 para 54% em 2007.

E, em segundo lugar, o Latinobarômetro também mostra que o país foi reduzindo os níveis de polarização política e vai se situando em posições mais ao centro politicamente sem que isso diminua o apoio popular ao governo.

Preponderância de fatores étnicos e culturais

Portanto, e na medida em que o apoio não se sustenta sobre posições ideológicas muito definidas, é necessário algum elemento adicional para tentar compreender a complexidade da situação.

Nesse sentido, o que nunca se pode ignorar na Bolívia são os fatores étnicos e culturais. Desse ponto de vista, Evo Morales é considerado como o presidente capaz de impulsionar um processo de transformação social gerador de inclusão social para a maior parte da população e, especialmente, para os povos e nações indígenas originários; como o líder do que em alguns círculos se conhece como a “segunda independência”.

Essa proposta fica reforçada pelo dado de que para 71% da população boliviana o conflito entre pessoas de diferentes raças é forte ou muito forte, o que constitui a expressão inequívoca de que estamos ante um conflito étnico e cultural, e que o presidente aglutina as esperanças de mudança dos tradicionalmente oprimidos e excluídos.

Uns excluídos que não só o são étnica e culturalmente mas também economicamente, segundo nos indica o dado da pesquisa de Gallup com que abrimos este texto.

Por que cresce o apoio a Evo Morales

Dessa forma, na medida em que o processo de transformação avança pelo reforço da legitimidade das instituições e dos mecanismos democráticos de participação e os excluídos têm maiores possibilidades de acesso aos mesmos, mantém-se e inclusive cresce o apoio popular ao Presidente de um Estado cuja população indígena e mestiça é majoritária e esta, por sua vez, é majoritariamente pobre.

Além do mais, isso ocorre independentemente da ideologia e da posição na escala social, graças à existência de barreiras para os mestiços das classes média e alta para a promoção social ou o acesso ao poder. Isso explicaria parcialmente o motivo de 40% dos integrantes dessas classes médias e altas apoiarem a liderança de Morales por considerar que seu projeto tenta eliminar a discriminação em todos os níveis.

Tudo isso nos conduz a uma conclusão muito evidente e que constitui, por sua vez, a resposta à pergunta que dá título a este artigo: apóia Evo Morales a maioria dos excluídos da Bolívia - econômica, cultural ou etnicamente. E isso, na Bolívia, significa que o apóia a maior parte da população. Agrade ou não agrade, doa a quem doer.

Resolvi traduzir e reproduzir na íntegra o artigo, porque ele traz informação alternativa à habitualmente servida pela mídia corporativa. Criei os entretítulos, que não existem na publicação original, para adaptar o artigo à linguagem dos blogs. O original está no link acima que aponta para o Rebelión.

Leia e veja também:

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2 comentários:

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  2. antonio barbosa filho28.6.08

    Amigos, vamos ver como o PIG vai tratar a notícia de que o presidente Uribe, da Colômbia, ícone da direita latino-americana, pediu ao Congresso um referendo que lhe permita disputar um TERCEIRO MANDATO. Quando idéia semelhante surge no Brasil, apesar da condenação de Lula, o PIG o chama de continuísta, pretendente a ditador, etc. Como será que vão tratar o títere dos EUA, Mr. Uribe, o invasor de vizinhos?

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